Desnutrição Energético-Proteica em Pacientes Dialíticos

Introdução

A desnutrição energético-proteica é uma das complicações mais frequentes e preocupantes em pacientes em diálise, especialmente na hemodiálise. Ela ocorre quando o paciente não ingere ou não absorve energia e proteínas de forma suficiente para manter o funcionamento adequado do organismo.

Na nefrologia, esse problema é extremamente relevante porque está diretamente associado ao aumento da mortalidade, maior risco de infecções, internações frequentes e pior qualidade de vida. Além disso, a desnutrição em pacientes dialíticos é muitas vezes silenciosa e progressiva, o que torna sua identificação um grande desafio na prática clínica.

Estudos recentes mostram que entre 30% e 50% dos pacientes em hemodiálise apresentam algum grau de desnutrição ou risco nutricional, segundo dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN, 2025) e da Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO). Isso reforça a importância da atuação da enfermagem na identificação precoce e no acompanhamento contínuo desses pacientes.

O que é a desnutrição energético-proteica na diálise?

A desnutrição energético-proteica ocorre quando o corpo não recebe quantidade suficiente de calorias (energia) e proteínas para manter suas funções básicas. Em pacientes dialíticos, isso pode acontecer por diversos motivos, como restrições alimentares, perda de apetite, inflamação crônica, efeitos do tratamento e presença de doenças associadas.

Diferente de outras populações, o paciente em hemodiálise perde nutrientes durante o próprio processo dialítico, o que aumenta ainda mais o risco de desnutrição.

A KDIGO e a National Kidney Foundation (KDOQI, 2024) reforçam que o estado nutricional é um dos principais determinantes de sobrevivência em pacientes com doença renal crônica avançada.

Por que o paciente em diálise tem maior risco de desnutrição?

Existem várias razões que explicam por que pacientes em diálise são mais vulneráveis à desnutrição. Uma das principais é a perda de proteínas durante as sessões de hemodiálise. Além disso, muitos pacientes apresentam perda de apetite, conhecida como anorexia urêmica, causada pelo acúmulo de toxinas no sangue.

Outro fator importante é a inflamação crônica, muito comum na doença renal avançada, que altera o metabolismo e favorece a perda de massa muscular.

Também devemos considerar as restrições alimentares. Muitos pacientes evitam alimentos importantes por medo de “fazer mal”, como carnes, frutas ou líquidos, o que pode levar a uma dieta pobre em nutrientes.

Um exemplo prático é o paciente que, ao receber orientações incompletas, reduz drasticamente a ingestão de alimentos proteicos e acaba evoluindo com fraqueza, perda de peso e fadiga intensa.

Sinais e sintomas da desnutrição no paciente dialítico

A desnutrição nem sempre é fácil de identificar no início. Muitas vezes ela se desenvolve de forma lenta e silenciosa. Alguns sinais comuns incluem perda de peso progressiva, fraqueza muscular, fadiga constante, redução da massa corporal e diminuição da capacidade funcional.

Outros sinais importantes são a perda de apetite, alterações na pele e cabelo, maior frequência de infecções e dificuldade de cicatrização. Em casos mais avançados, o paciente pode apresentar caquexia, que é uma perda severa de massa muscular e gordura corporal.

Segundo estudos publicados no Journal of Renal Nutrition, a avaliação nutricional regular em pacientes dialíticos reduz significativamente o risco de complicações e hospitalizações.

O papel da inflamação na desnutrição do paciente renal

Um ponto importante que muitas vezes passa despercebido é a relação entre inflamação e desnutrição. Na doença renal crônica, o corpo frequentemente apresenta um estado inflamatório persistente. Isso altera o metabolismo das proteínas e favorece a perda de massa muscular, mesmo quando o paciente se alimenta.

Esse quadro é conhecido como síndrome de desnutrição-inflamação e está fortemente associado ao aumento da mortalidade em pacientes em hemodiálise. A Kidney International destaca que a inflamação crônica é um dos principais fatores que agravam o estado nutricional desses pacientes.

Avaliação nutricional na prática da enfermagem

A enfermagem tem papel fundamental na identificação precoce da desnutrição. Durante a rotina da hemodiálise, o enfermeiro está em contato frequente com o paciente e pode observar sinais importantes, como perda de peso, fraqueza e mudanças no comportamento alimentar.

Um dos parâmetros mais utilizados é o ganho ou perda de peso interdialítico. Alterações importantes podem indicar tanto sobrecarga hídrica quanto desnutrição.

Outro ponto importante é a observação da ingestão alimentar relatada pelo paciente. Perguntas simples como “você tem conseguido se alimentar bem?” podem revelar informações importantes.

Além disso, o enfermeiro pode atuar em parceria com nutricionistas para acompanhamento mais detalhado e intervenções precoces. A KDOQI recomenda avaliação nutricional periódica em todos os pacientes em diálise como parte essencial do cuidado.

Consequências da desnutrição no paciente dialítico

A desnutrição energético-proteica tem consequências graves para o paciente renal. Ela está associada ao aumento do risco de infecções, maior número de internações, pior resposta ao tratamento e aumento da mortalidade.

Além disso, pacientes desnutridos apresentam menor tolerância à hemodiálise, mais fadiga durante as sessões e pior qualidade de vida. Um exemplo clínico comum é o paciente que começa a apresentar queda no desempenho físico, falta de energia para atividades simples e maior dependência de cuidadores.

Estudos do Clinical Journal of the American Society of Nephrology (CJASN) mostram que o estado nutricional é um dos principais preditores de sobrevivência em pacientes dialíticos.

Estratégias para prevenção da desnutrição

A prevenção da desnutrição exige uma abordagem multidisciplinar e contínua. O acompanhamento nutricional individualizado é essencial, considerando as necessidades específicas de cada paciente.

A orientação alimentar deve ser clara e adaptada, evitando restrições excessivas que possam levar à redução da ingestão de nutrientes importantes. Outro ponto importante é incentivar o consumo adequado de proteínas de alto valor biológico, como carnes magras, ovos e algumas fontes vegetais bem orientadas.

O controle de sintomas como náuseas, vômitos e perda de apetite também é fundamental, pois esses fatores impactam diretamente na alimentação. Além disso, o suporte emocional desempenha um papel importante, já que depressão e ansiedade podem reduzir significativamente o interesse pela alimentação.

Benefícios para a prática clínica do enfermeiro

O conhecimento sobre desnutrição energético-proteica permite ao enfermeiro atuar de forma mais preventiva e eficaz no cuidado ao paciente dialítico. Na prática, isso resulta em melhor identificação precoce de riscos nutricionais, maior segurança no acompanhamento clínico e redução de complicações.

Algumas ações práticas incluem:

  • Monitorar regularmente o peso do paciente e suas variações;
  • Observar sinais de perda muscular e fadiga;
  • Investigar hábitos alimentares de forma simples e contínua;
  • Incentivar a adesão ao acompanhamento nutricional;
  • Trabalhar em conjunto com a equipe multiprofissional;
  • Orientar o paciente de forma clara e acessível sobre alimentação;
  • Registrar mudanças clínicas relacionadas ao estado nutricional.

Essas ações ajudam a melhorar significativamente os desfechos clínicos e a qualidade de vida do paciente.

Conclusão

A desnutrição energético-proteica em pacientes dialíticos é uma condição frequente, grave e muitas vezes silenciosa. Seu impacto vai muito além do peso corporal, afetando diretamente a imunidade, a resposta ao tratamento e a sobrevivência do paciente.

O enfermeiro, como profissional que acompanha de perto o paciente em hemodiálise, tem papel essencial na identificação precoce e na prevenção dessa condição. Diante da complexidade do cuidado em nefrologia, torna-se cada vez mais necessário investir em educação continuada e especialização profissional.

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Referências

CLINICAL JOURNAL OF THE AMERICAN SOCIETY OF NEPHROLOGY (CJASN). Nutrition and Outcomes in Hemodialysis Patients. 2024.

JOURNAL OF RENAL NUTRITION. Protein-Energy Wasting in Dialysis Patients: Clinical Implications. 2023.

KIDNEY DISEASE: IMPROVING GLOBAL OUTCOMES (KDIGO). Clinical Practice Guideline for Chronic Kidney Disease. Kidney International Supplements, 2024.

KIDNEY INTERNATIONAL. Inflammation and Malnutrition in Chronic Kidney Disease. 2024.

NATIONAL KIDNEY FOUNDATION. KDOQI Clinical Practice Guideline for Nutrition in CKD. New York: NKF, 2024.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA (SBN). Censo Brasileiro de Diálise 2025. São Paulo: SBN, 2025.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global Report on Chronic Kidney Disease and Nutrition. Geneva: WHO, 2024.

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