Introdução
A lesão renal aguda (LRA) é uma condição comum, grave e potencialmente reversível, caracterizada por uma queda rápida da função dos rins. Ela pode surgir em diferentes contextos clínicos, como infecções graves, uso de medicamentos nefrotóxicos, cirurgias, choque séptico e desidratação importante.
Na prática da enfermagem e da nefrologia, a LRA exige identificação precoce e intervenção rápida, pois mesmo pequenas alterações na função renal podem evoluir para complicações graves, aumento do tempo de internação e maior risco de mortalidade.
Nos últimos anos, a medicina tem avançado significativamente na busca por formas mais precoces e precisas de detectar lesão renal. Nesse contexto, surgem os biomarcadores emergentes, que são substâncias presentes no sangue ou na urina capazes de indicar sofrimento renal antes mesmo das alterações tradicionais, como a creatinina.
Esse avanço representa uma mudança importante na forma como a lesão renal é diagnosticada e acompanhada, permitindo intervenções mais rápidas e eficazes.
O que são biomarcadores na lesão renal aguda?
Biomarcadores são substâncias biológicas que ajudam a identificar alterações no funcionamento do organismo. Na lesão renal aguda, eles podem indicar sofrimento dos rins antes que ocorra uma queda significativa na taxa de filtração glomerular ou aumento da creatinina.
A creatinina, embora ainda seja o principal marcador utilizado na prática clínica, possui uma limitação importante: ela sobe tardiamente, muitas vezes 24 a 48 horas após a lesão já ter ocorrido.
Por isso, biomarcadores emergentes têm sido estudados para permitir diagnóstico mais precoce e intervenção imediata.
De acordo com a Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO, 2023), o uso de biomarcadores pode melhorar significativamente a detecção precoce da LRA em pacientes críticos.
Principais biomarcadores emergentes
Entre os biomarcadores mais estudados atualmente, alguns se destacam por sua relevância clínica e aplicação prática. Um dos mais importantes é o NGAL (Neutrophil Gelatinase-Associated Lipocalin), uma proteína que aumenta rapidamente na urina e no sangue após lesão tubular renal. Ele pode se elevar poucas horas após o insulto renal, muito antes da creatinina.
Outro biomarcador promissor é o KIM-1 (Kidney Injury Molecule-1), que aparece quando há dano nas células tubulares dos rins. Ele é considerado um marcador bastante sensível para lesão precoce.
Também temos a IL-18 (Interleucina-18), associada a processos inflamatórios renais, e o L-FABP (Liver-type Fatty Acid Binding Protein), que indica estresse celular nos túbulos renais.
Estudos publicados no Journal of the American Society of Nephrology (JASN) mostram que a combinação desses biomarcadores pode aumentar significativamente a precisão diagnóstica da LRA.
A limitação da creatinina e a importância do diagnóstico precoce
A creatinina sérica ainda é o padrão mais utilizado na prática clínica, mas possui limitações importantes. Ela depende não apenas da função renal, mas também de fatores como massa muscular, idade e estado nutricional. Além disso, sua elevação ocorre de forma tardia, o que pode atrasar o diagnóstico da lesão renal.
Isso significa que, quando a creatinina aumenta, o dano renal já está em andamento há algum tempo.
Um exemplo prático é o paciente em unidade de terapia intensiva que desenvolve sepse. A função renal pode começar a piorar horas antes da creatinina se alterar, e nesse intervalo, intervenções poderiam evitar progressão da lesão.
Por isso, biomarcadores emergentes representam uma ferramenta essencial para antecipar o diagnóstico e melhorar os desfechos clínicos.
Biomarcadores na prática clínica da enfermagem
Embora muitos desses testes ainda não estejam amplamente disponíveis na rotina hospitalar, seu uso já está sendo incorporado em centros de terapia intensiva e pesquisa clínica. Para a enfermagem, entender esses biomarcadores é fundamental, pois permite reconhecer a importância do monitoramento precoce e da vigilância contínua do paciente em risco de LRA.
O enfermeiro atua diretamente na identificação de fatores de risco, como uso de medicamentos nefrotóxicos (ex: antibióticos como aminoglicosídeos), hipotensão prolongada, infecções graves e procedimentos cirúrgicos.
Ao identificar esses riscos, o enfermeiro pode atuar preventivamente, comunicando a equipe médica e reforçando medidas de proteção renal. A KDIGO recomenda que pacientes de alto risco para LRA sejam monitorados de forma intensiva, incluindo avaliação de débito urinário e exames laboratoriais frequentes.
Situações clínicas comuns relacionadas à LRA
Na prática hospitalar, a lesão renal aguda pode surgir em diferentes cenários. Um exemplo comum é o paciente internado por infecção grave que evolui para choque séptico. Nesse caso, a perfusão renal é comprometida, levando à lesão tubular aguda.
Outro exemplo é o uso de medicamentos nefrotóxicos, como contraste iodado em exames de imagem, que pode desencadear lesão renal em pacientes com fatores de risco. Também é frequente a LRA em pacientes cirúrgicos, especialmente em cirurgias cardíacas, onde há variações importantes na pressão arterial e na perfusão renal.
Nessas situações, biomarcadores emergentes poderiam permitir a detecção precoce da lesão antes mesmo da manifestação clínica evidente.
O futuro da nefrologia com biomarcadores
A tendência na nefrologia moderna é a personalização do cuidado. Os biomarcadores emergentes representam um passo importante nessa direção, permitindo diagnósticos mais rápidos, precisos e individualizados.
Além disso, a combinação de biomarcadores com inteligência artificial e monitoramento contínuo pode transformar a forma como a lesão renal aguda é prevenida e tratada.
Estudos recentes publicados no Kidney International Reports destacam que o uso combinado de biomarcadores e algoritmos clínicos pode reduzir significativamente a progressão da LRA em ambientes hospitalares.
Benefícios para a prática clínica do enfermeiro
O conhecimento sobre biomarcadores emergentes, mesmo que ainda em expansão, traz benefícios diretos para a prática da enfermagem. O enfermeiro passa a ter uma visão mais ampla sobre a importância do diagnóstico precoce e da vigilância contínua dos pacientes em risco.
Na prática, isso se traduz em ações como:
- Identificar precocemente pacientes com risco de lesão renal;
- Monitorar rigorosamente débito urinário e sinais vitais;
- Observar uso de medicamentos nefrotóxicos;
- Comunicar alterações clínicas de forma rápida à equipe médica;
- Incentivar protocolos de prevenção de LRA;
- Participar de discussões clínicas sobre risco renal;
- Atualizar-se constantemente sobre novas tecnologias diagnósticas.
Essas atitudes ajudam a reduzir complicações, melhorar desfechos e aumentar a segurança do paciente.
Conclusão
A lesão renal aguda é uma condição grave, mas potencialmente prevenível quando identificada precocemente. Os biomarcadores emergentes representam um avanço importante na nefrologia moderna, permitindo detecção mais rápida e precisa da lesão renal antes mesmo das alterações tradicionais.
Para o enfermeiro, compreender essas novas ferramentas significa estar preparado para atuar em um cenário cada vez mais tecnológico, seguro e baseado em evidências. A educação continuada é essencial para acompanhar essas mudanças e garantir uma prática clínica atualizada e de qualidade.
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Referências
JOINT COMMITTEE OF THE AMERICAN SOCIETY OF NEPHROLOGY (JASN). Biomarkers of Acute Kidney Injury: Current Evidence and Future Directions. 2024.
KIDNEY DISEASE: IMPROVING GLOBAL OUTCOMES (KDIGO). Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney International Supplements, 2023.
KIDNEY INTERNATIONAL REPORTS. Emerging Biomarkers in AKI: Clinical Applications and Outcomes. 2024.
NATIONAL INSTITUTE OF DIABETES AND DIGESTIVE AND KIDNEY DISEASES (NIDDK). Acute Kidney Injury Research Updates. 2023.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA (SBN). Diretrizes de Lesão Renal Aguda no Brasil. São Paulo: SBN, 2025.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global Burden of Kidney Disease Report. Geneva: WHO, 2024.