Introdução
A diálise contínua em pacientes críticos na UTI é uma das terapias mais complexas dentro da nefrointensivismo. Ela é indicada principalmente em pacientes instáveis hemodinamicamente, que não toleram métodos tradicionais de hemodiálise intermitente. Nesse cenário, o enfermeiro assume um papel central na segurança, monitorização e manutenção da terapia.
A atuação da enfermagem vai muito além do cuidado técnico com a máquina: envolve raciocínio clínico, vigilância constante e tomada de decisão rápida diante de alterações do estado do paciente. Estudos recentes em terapia renal substitutiva contínua (TRSC), como os publicados no Critical Care e Clinical Journal of the American Society of Nephrology, reforçam que a qualidade da assistência de enfermagem impacta diretamente a mortalidade e as complicações associadas ao tratamento.
O que é a diálise contínua e por que ela é usada na UTI
A diálise contínua, também chamada de terapia renal substitutiva contínua (TRSC), é um método de depuração sanguínea realizado de forma lenta e ininterrupta, geralmente por 24 horas ou mais. Ela é indicada principalmente para pacientes críticos com instabilidade hemodinâmica, como aqueles em choque séptico, falência múltipla de órgãos ou com lesão renal aguda grave.
Diferente da hemodiálise convencional, que remove líquidos e toxinas de forma rápida, a terapia contínua permite maior estabilidade cardiovascular. Isso reduz riscos de hipotensão e piora clínica durante o tratamento.
Para o enfermeiro da UTI, compreender essa diferença é essencial para entender por que o paciente precisa desse tipo específico de terapia e como ela deve ser conduzida com segurança.
O enfermeiro como guardião da segurança na terapia contínua
O papel da enfermagem na diálise contínua é fundamental para evitar complicações graves. O enfermeiro atua como o profissional responsável pela vigilância contínua do sistema e do paciente.
Entre suas principais responsabilidades estão:
- Monitorar sinais vitais de forma constante, especialmente pressão arterial e frequência cardíaca;
- Avaliar o balanço hídrico rigoroso, garantindo controle preciso da ultrafiltração;
- Verificar o funcionamento da máquina e dos alarmes;
- Garantir a permeabilidade do acesso venoso central;
- Prevenir infecções relacionadas ao cateter;
- Observar sinais precoces de coagulação do circuito.
Estudos como o de Hoste et al. (2020, Intensive Care Medicine) mostram que falhas na monitorização durante TRSC estão associadas a aumento de complicações e menor eficácia da terapia.
Manejo do acesso vascular: um dos pontos mais críticos
O acesso vascular é considerado o “coração” da diálise contínua. Na UTI, ele geralmente é feito por cateter venoso central de alto fluxo, inserido em veia jugular ou femoral.
O enfermeiro precisa garantir:
- Curativo estéril e trocado conforme protocolo institucional;
- Avaliação diária de sinais de infecção (vermelhidão, secreção, dor local);
- Manutenção da permeabilidade do cateter;
- Evitar desconexões acidentais;
- Acompanhamento rigoroso da manipulação do circuito.
Infecções relacionadas ao cateter ainda são uma das principais complicações da TRSC, segundo dados do Kidney International Reports (2021–2023), o que reforça a importância do cuidado de enfermagem baseado em prevenção.
Monitorização hemodinâmica e ajustes durante a terapia
Durante a diálise contínua, o paciente pode apresentar alterações sutis, mas clinicamente importantes. O enfermeiro precisa estar atento a qualquer mudança que indique instabilidade.
Os principais pontos de monitorização incluem:
- Pressão arterial média (PAM);
- Equilíbrio hídrico (entradas e saídas);
- Temperatura corporal;
- Níveis de consciência;
- Resposta à ultrafiltração.
Um erro comum é subestimar pequenas alterações hemodinâmicas, que podem evoluir rapidamente para choque. A literatura atual destaca que a vigilância contínua reduz eventos adversos e melhora a segurança da terapia.
Prevenção de complicações na terapia renal contínua
As principais complicações da diálise contínua incluem hipotensão, distúrbios eletrolíticos, coagulação do filtro e infecções. O enfermeiro atua diretamente na prevenção dessas situações, por meio de:
- Ajuste correto da ultrafiltração conforme prescrição;
- Monitoramento de eletrólitos séricos (como potássio e cálcio);
- Observação do circuito extracorpóreo;
- Identificação precoce de alarmes da máquina;
- Comunicação rápida com a equipe multiprofissional.
Segundo estudos publicados no Critical Care Clinics (2022), equipes de enfermagem treinadas em TRSC apresentam menor taxa de falhas do circuito e melhor eficiência do tratamento.
Comunicação e trabalho multiprofissional na UTI
A diálise contínua exige integração constante entre enfermagem, nefrologia, medicina intensiva e engenharia clínica. O enfermeiro atua como elo entre todos esses setores.
A comunicação eficaz inclui:
- Relatar alterações clínicas imediatamente;
- Documentar rigorosamente parâmetros da terapia;
- Participar de decisões sobre ajustes do tratamento;
- Garantir alinhamento com protocolos da unidade.
Esse trabalho em equipe é essencial para o sucesso da terapia e para a segurança do paciente crítico.
Benefícios para a Prática Clínica
Quando o enfermeiro compreende profundamente seu papel na diálise contínua, a assistência se torna mais segura, eficiente e baseada em evidências.
Na prática, isso gera:
- Redução de complicações relacionadas ao tratamento;
- Maior estabilidade hemodinâmica do paciente;
- Diminuição de infecções associadas ao cateter;
- Melhor controle do balanço hídrico;
- Respostas mais rápidas a intercorrências na UTI.
Além disso, o profissional ganha maior autonomia clínica e confiança na tomada de decisão.
Conclusão
O enfermeiro é peça central na condução da diálise contínua em UTI. Sua atuação vai muito além da execução técnica: envolve vigilância constante, pensamento crítico e integração com a equipe multiprofissional.
Em um ambiente tão dinâmico quanto a terapia intensiva, a atualização constante é indispensável. A educação continuada em nefrologia permite que o profissional atue com mais segurança e excelência em situações de alta complexidade.
Para quem deseja se aprofundar nessa área e se destacar no cuidado ao paciente crítico renal, a especialização em nefrologia é um caminho estratégico. A pós graduação em Nefrologia da NefroPós pode ser um passo importante para desenvolver habilidades avançadas e fortalecer sua atuação na UTI.
Referências
Bagshaw SM et al. Timing and modalities of renal replacement therapy in ICU. Kidney International Reports. 2023;8(2):215–227.
Clark E, Molnar AO. Renal replacement therapy in critically ill patients. Clinical Journal of the American Society of Nephrology. 2022;17(5):789–801.
Hoste EAJ et al. Acute kidney injury in critically ill patients. Intensive Care Medicine. 2020;46(7):1190–1200.
KDIGO. Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney International Supplements. 2012 (atualizações clínicas recentes).
Kellum JA, Lameire N. Diagnosis, evaluation, and management of acute kidney injury. Critical Care. 2021;25:360.
Ricci Z et al. Continuous renal replacement therapy in the ICU: current evidence. Critical Care Clinics. 2022;38(3):345–362.