Introdução
A necessidade de diálise em pacientes internados na UTI é uma das decisões mais críticas dentro do cuidado em nefrointensivismo. Isso porque o rim, quando falha de forma aguda ou crônica descompensada, pode comprometer rapidamente o equilíbrio do organismo, levando a alterações graves de eletrólitos, acúmulo de toxinas e sobrecarga de líquidos.
Para a equipe de enfermagem, reconhecer o momento certo de indicar ou apoiar a terapia dialítica é fundamental para evitar complicações e melhorar desfechos clínicos. A atuação precisa ser rápida, baseada em sinais clínicos e laboratoriais, além de alinhada com protocolos atualizados de terapia renal substitutiva (TRS) em pacientes críticos.
O que leva um paciente da UTI a precisar de diálise?
Na UTI, a diálise geralmente não é iniciada apenas pelo número da creatinina, mas sim por um conjunto de sinais clínicos e laboratoriais que indicam falência renal importante. O quadro mais comum é a lesão renal aguda (LRA), condição que pode surgir rapidamente devido a sepse, choque, uso de medicamentos nefrotóxicos, grandes cirurgias ou insuficiência circulatória.
Um ponto essencial é entender que a diálise na UTI não serve apenas para “substituir o rim”, mas para manter o paciente vivo enquanto a causa da lesão renal é tratada. Estudos como o KDIGO Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury (2012, atualizado em revisões recentes) reforçam que a decisão deve ser baseada em critérios clínicos como:
- Sobrecarga de volume refratária a diuréticos;
- Hipercalemia persistente (potássio elevado);
- Acidose metabólica grave;
- Uremia com sintomas (encefalopatia, pericardite urêmica);
- Oligúria ou anúria persistente.
Na prática da UTI, a enfermagem tem papel essencial ao identificar precocemente esses sinais antes mesmo da piora laboratorial.
Sinais clínicos de alerta que a enfermagem precisa reconhecer
A detecção precoce é um dos pilares do cuidado nefrológico em pacientes críticos. Muitas vezes, os primeiros sinais de que o paciente pode precisar de diálise são clínicos e não laboratoriais.
Entre os sinais mais importantes estão:
- Redução importante do volume urinário (menos de 0,5 mL/kg/h);
- Edema progressivo, principalmente em membros inferiores e pulmões;
- Aumento da pressão arterial difícil de controlar;
- Alterações neurológicas como confusão mental ou sonolência;
- Dispneia por sobrecarga hídrica;
- Náuseas persistentes e inapetência.
Em muitos casos, o paciente ainda não tem indicação formal imediata de diálise, mas já apresenta tendência de piora. É nesse ponto que a observação da enfermagem faz diferença no desfecho.
Quando a diálise se torna urgente na UTI
A urgência dialítica acontece quando há risco iminente de morte ou complicações graves. A literatura atual, incluindo revisões da Kidney International Reports (2020 2023), reforça que não existe um “tempo ideal universal” para iniciar diálise, mas sim uma avaliação contínua da evolução clínica.
Os principais cenários de urgência são:
- Potássio muito elevado com risco de arritmia cardíaca;
- Edema agudo de pulmão refratário ao tratamento medicamentoso;
- Acidose metabólica grave com instabilidade hemodinâmica;
- Uremia com rebaixamento do nível de consciência;
- Sobrecarga hídrica severa com falência respiratória.
Na prática, o enfermeiro da UTI frequentemente é o primeiro profissional a perceber que o paciente está “descompensando silenciosamente”, antes da indicação médica formal.
Tipos de diálise na UTI e por que isso importa para a enfermagem
Na terapia intensiva, os dois principais métodos são: A hemodiálise intermitente, geralmente mais rápida, usada em pacientes hemodinamicamente estáveis. E as terapias contínuas, como a hemodiafiltração venovenosa contínua (CVVHDF), mais usadas em pacientes instáveis, pois promovem remoção lenta e constante de toxinas e líquidos.
Para a enfermagem, entender essa diferença é importante porque cada modalidade exige cuidados específicos com:
- Controle rigoroso de balanço hídrico;
- Monitorização hemodinâmica contínua;
- Prevenção de coagulação do circuito;
- Vigilância de alarmes da máquina;
- Avaliação de acesso vascular.
A escolha da modalidade influencia diretamente a estabilidade do paciente.
O papel da enfermagem no sucesso da terapia dialítica
O sucesso da diálise na UTI depende muito mais do cuidado contínuo do que apenas da máquina. A enfermagem atua na linha de frente garantindo segurança, prevenindo complicações e identificando alterações precoces.
Algumas práticas essenciais incluem:
- Conferir rigorosamente o acesso venoso central antes de iniciar a terapia;
- Monitorar sinais de hipotensão durante a sessão;
- Garantir assepsia rigorosa para evitar infecções;
- Registrar cuidadosamente o balanço hídrico;
- Observar sinais de melhora ou piora clínica durante a diálise.
Estudos como os publicados no Clinical Journal of the American Society of Nephrology (CJASN, 2021–2023) mostram que unidades com equipe de enfermagem treinada em nefrologia têm menor taxa de complicações relacionadas à terapia dialítica.
Benefícios para a Prática Clínica
Compreender quando o paciente da UTI precisa de diálise melhora diretamente a qualidade da assistência. A enfermagem passa a atuar de forma mais preventiva, reduzindo atrasos na intervenção e evitando complicações graves como edema pulmonar e arritmias fatais.
Na prática, isso se traduz em:
- Identificação precoce da LRA;
- Comunicação mais eficiente com a equipe médica;
- Redução do tempo de internação na UTI;
- Maior segurança na terapia renal substitutiva;
- Melhor prognóstico do paciente crítico.
Além disso, o enfermeiro ganha mais autonomia clínica e segurança nas decisões do cuidado.
Conclusão
A necessidade de diálise na UTI não é determinada apenas por exames laboratoriais, mas principalmente pela avaliação clínica contínua do paciente. Reconhecer os sinais precoces de disfunção renal pode ser decisivo entre a estabilização e a piora rápida do quadro.
Nesse cenário, a enfermagem em nefrointensivismo assume um papel essencial, exigindo conhecimento técnico atualizado e tomada de decisão ágil. Por isso, a educação continuada em nefrologia é fundamental para preparar profissionais cada vez mais capacitados para lidar com pacientes críticos.
Para quem deseja aprofundar seus conhecimentos e atuar com mais segurança em terapia renal substitutiva e UTI, a especialização é um caminho importante. A pós graduação em Nefrologia da NefroPós pode ser um próximo passo para desenvolver competências avançadas e fortalecer sua atuação profissional.
Referências
Bagshaw SM et al. Timing of renal replacement therapy in acute kidney injury. Kidney Int Rep. 2021;6(8):2041–2052.
Clark E, Molnar AO. Renal replacement therapy in the ICU: current evidence and practice. Clin J Am Soc Nephrol. 2022;17(5):789–801.
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