Introdução
Na rotina da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), a observação da diurese — ou seja, da quantidade de urina eliminada pelo paciente — é uma das formas mais simples e importantes de avaliar o funcionamento do organismo. Entre as alterações mais comuns está a oligúria, que significa uma redução significativa na produção de urina.
Embora possa parecer apenas um detalhe, a oligúria é, muitas vezes, um dos primeiros sinais de que algo não está bem, especialmente com os rins. Em pacientes críticos, ela pode indicar desde desidratação até falência de múltiplos órgãos.
Para o enfermeiro, reconhecer esse sinal precocemente pode ser decisivo. Neste artigo, você vai entender, de forma simples e prática, quando a oligúria se torna perigosa e como agir diante dessa situação.
O que é oligúria e como identificar na prática
A oligúria é definida, de forma geral, como uma produção de urina menor que 0,5 mL por kg por hora. Isso significa que um paciente de 70 kg deveria urinar, em média, pelo menos 35 mL por hora. Valores abaixo disso já acendem um alerta.
Na prática da UTI, essa avaliação é feita continuamente, geralmente por meio de sonda vesical, o que permite um controle preciso do volume urinário.
O ponto mais importante não é apenas um valor isolado, mas sim a tendência. Um paciente que vinha urinando normalmente e passa a apresentar queda progressiva da diurese merece atenção imediata.
Por exemplo, se um paciente urinava 50 mL/h e passa a eliminar apenas 15–20 mL/h, isso pode indicar um problema em evolução.
Principais causas de oligúria no paciente crítico
A oligúria pode ter várias causas, e entender isso é essencial para uma avaliação correta. De forma simples, podemos pensar em três grandes grupos.
O primeiro é quando o problema está relacionado à falta de volume circulante, como em casos de desidratação, hemorragia ou choque. Nesses casos, o corpo reduz a produção de urina para tentar “economizar” líquidos.
O segundo grupo envolve problemas diretamente nos rins, como a lesão renal aguda. Aqui, os rins perdem a capacidade de filtrar o sangue adequadamente. O terceiro grupo está relacionado a obstruções, como problemas no trato urinário que impedem a saída da urina.
Na prática, um paciente com sepse, por exemplo, pode apresentar oligúria tanto por queda da pressão quanto por lesão direta nos rins causada pela infecção.
Quando a oligúria se torna perigosa?
A oligúria se torna perigosa quando não é reconhecida ou quando persiste por longos períodos.
Isso porque a baixa produção de urina pode indicar que os rins não estão conseguindo eliminar:
- Toxinas;
- Excesso de líquidos;
- Eletrólitos.
Com isso, o organismo começa a entrar em desequilíbrio. Na prática, isso pode levar a:
- Inchaço generalizado;
- Falta de ar (por acúmulo de líquido nos pulmões);
- Alterações cardíacas (por aumento do potássio);
- Confusão mental.
Estudos clínicos mostram que pacientes com oligúria persistente têm maior risco de desenvolver lesão renal aguda e maior mortalidade, especialmente quando associados a outros sinais de gravidade.
Relação entre oligúria e lesão renal aguda
A oligúria é um dos principais critérios para o diagnóstico de lesão renal aguda (LRA), segundo diretrizes internacionais como o KDIGO. Isso significa que, muitas vezes, a redução da urina é o primeiro sinal de que os rins estão falhando.
Na prática, a creatinina (exame de sangue) pode demorar a subir, enquanto a diurese reduz rapidamente. Por isso, observar a urina pode ser mais precoce do que esperar exames laboratoriais.
Um exemplo clássico é o paciente que apresenta queda da diurese poucas horas após um episódio de choque. Mesmo com exames ainda normais, já pode estar desenvolvendo lesão renal.
Avaliação clínica: o olhar atento do enfermeiro
Na UTI, o enfermeiro é o profissional que está mais próximo do paciente e, portanto, tem um papel essencial na identificação da oligúria. A avaliação não deve se limitar apenas ao volume urinário. É importante observar o paciente como um todo.
Na prática, isso inclui:
- Avaliar o balanço hídrico;
- Observar sinais de desidratação ou sobrecarga de líquidos;
- Monitorar pressão arterial;
- Verificar alterações na cor da urina;
- Acompanhar exames laboratoriais.
Por exemplo, uma urina muito escura e em pequena quantidade pode indicar concentração elevada, sugerindo desidratação ou má perfusão. Já um paciente com pouca urina e edema pode estar retendo líquidos.
Condutas e intervenções na prática
Diante da oligúria, a equipe deve agir rapidamente para identificar a causa e iniciar o tratamento adequado. Na prática, isso pode envolver:
- Ajuste de volume (hidratação ou restrição);
- Uso de medicamentos;
- Avaliação da função renal;
- Início de diálise, em casos mais graves.
O papel do enfermeiro é fundamental nesse processo, garantindo que os dados estejam corretos e comunicando alterações rapidamente. Um exemplo comum é perceber redução da diurese e comunicar imediatamente, permitindo intervenção precoce antes da piora do quadro.
Desafios na rotina da UTI
Apesar de ser um sinal importante, a oligúria pode ser subestimada na rotina agitada da UTI. Entre os principais desafios estão:
- Falhas no registro do débito urinário;
- Interpretação isolada dos dados;
- Foco excessivo em exames laboratoriais.
Na prática, isso pode atrasar a identificação de problemas. Por isso, reforçar a importância da observação contínua é essencial para a segurança do paciente.
Benefícios para a prática clínica
Compreender a oligúria e sua importância permite ao enfermeiro atuar de forma mais segura e eficiente. Na prática, isso ajuda a:
- Identificar precocemente a lesão renal;
- Prevenir complicações graves;
- Melhorar a comunicação com a equipe;
- Garantir um cuidado mais completo.
Uma dica prática é sempre correlacionar a diurese com outros dados, como pressão, balanço hídrico e estado clínico. Outra recomendação é nunca ignorar pequenas quedas na diurese — elas podem ser o início de um problema maior.
Conclusão
A oligúria é um sinal simples, mas extremamente importante na avaliação do paciente crítico. Muitas vezes, ela é o primeiro indicativo de que algo não está bem, especialmente com os rins. Para o enfermeiro, reconhecer esse sinal e agir rapidamente pode fazer toda a diferença na evolução do paciente.
Investir em conhecimento na área de nefrologia é fundamental para compreender melhor essas situações e atuar com mais segurança na UTI.
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Referências
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Hoste EAJ, et al. Epidemiology of acute kidney injury. Nature Reviews Nephrology.
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