Cateter Duplo Lúmen em Uso Prolongado: Riscos e Cuidados Essenciais de Enfermagem

Introdução

O cateter duplo lúmen é um dispositivo muito usado como acesso vascular para hemodiálise, especialmente em situações de urgência, quando a fístula arteriovenosa ainda não está disponível ou quando há necessidade de acesso imediato. Ele permite que o sangue seja retirado e devolvido pela máquina de diálise simultaneamente, o que facilita o tratamento.

No entanto, quando esse cateter permanece por tempo prolongado, ele traz riscos maiores para o paciente. Infecções, trombose, mau funcionamento e outras complicações podem surgir se os cuidados não forem rigorosos.

Para o enfermeiro, entender esses riscos, detectar sinais de alerta e aplicar condutas preventivas é fundamental. A prática segura com cateteres prolongados envolve técnica, observação e educação. Além disso, a especialização em Nefrologia e a educação continuada ajudam a manter a equipe sempre atualizada, reduzindo erros e promovendo um cuidado mais seguro e de qualidade.

Quais são os principais riscos do uso prolongado do cateter duplo lúmen

  • Infecção de corrente sanguínea: o cateter é porta de entrada para microrganismos. Estudos mostram taxas elevadas de infecção associadas ao uso prolongado. Por exemplo, um trabalho em hospital na Indonésia encontrou que 31,9% dos pacientes com cateter duplo lúmen tiveram infecção relacionada (exit site ou bloodstream) durante o uso prolongado (Salim et al., 2021);
  • Trombose e mau fluxo: coágulos podem se formar dentro do lúmen ou ao redor do cateter, reduzindo o fluxo de sangue, prejudicando a hemodiálise. Estudo com cateteres colocados na veia femoral demonstrou que trombos extraluminais frequentemente causavam disfunção do cateter (Salim et al., 2021);
  • Malposição ou deslocamento: com o tempo ou por movimento do paciente, o cateter pode se deslocar ou se posicionar de forma inadequada, comprometendo sua eficácia ou gerando risco de lesão. Um caso relatado envolveu hemorragia e choque hipovolêmico por malposição tardia do cateter duplo lúmen femoral (Wang et al., 2022);
  • Complicações mecânicas: falhas nos lúmens (dificuldade para aspirar sangue ou infundir), obstruções, acúmulo de biofilme ou formação de fibrina ao redor do cateter (Wang et al., 2022);
  • Aumento da mortalidade ou morbidade: infecções graves, principalmente as do tipo bloodstream infection, podem levar a septicemia, prolongamento do tempo hospitalar e outros desfechos ruins. Em cateteres temporários duplo lúmen, estudos demonstram taxas de bacteremia importantes (Wang et al., 2022).

Fatores de risco que aumentam as chances de complicações

  • Quanto mais tempo o cateter permanece em uso, maior o risco de infecção e trombose. Estudos identificam risco crescente após cerca de 3–4 semanas;
  • Local de inserção: cateteres na veia femoral têm risco maior de infecção comparado aos cateteres em veias jugular interna ou subclávia;
  • Estado nutricional do paciente: hipoalbuminemia (níveis baixos de albumina no sangue) está associada a risco maior de infecção;
  • Situação clínica geral: pacientes com baixa imunidade, doenças concomitantes como diabetes, histórico de infecções, falhas frequentes nos lúmens;
  • Manejo inadequado: curativos malfeitos, higiene deficiente, falha na antissepsia das conexões, manipulações desnecessárias, falta de monitoramento (López-Rubio et al., 2024).

Cuidados essenciais de enfermagem no uso prolongado

Para reduzir os riscos, o enfermeiro deve estar atento e seguir práticas seguras no dia a dia. Aqui vão orientações de conduta segundo Guo et al. (2024):

  • Fazer higienização rigorosa das mãos antes de qualquer manipulação do cateter, uso de luvas estéreis, uso de antisséptico no local de inserção;
  • Inspecionar o local do cateter diariamente: observar vermelhidão, calor, inchaço, dor, secreção;
  • Verificar função do cateter antes de cada sessão: testar se flui bem para infusão e aspiração de sangue. Se houver dificuldade, identificar se é obstrução, fibrina ou mau posicionamento;
  • Manter curativo limpo, seco, bem fixado, trocar conforme protocolo institucional ou sempre que estiver molhado, sujo ou liberando secreção;
  • Evitar manipulações desnecessárias dos lúmens: quanto menos intervenções, menor o risco de contaminação;
  • Usar cateteres tunelizados ou com cuff (quando possível) para uso prolongado, pois oferecem barreira adicional contra infecções na pele;
  • Promover desinfecção das conexões (“hub”) com antisséptico adequado antes de cada uso;
  • Registrar todos os dados: data de inserção, falhas ou problemas observados, intervenções feitas, parte da equipe responsável. Isso ajuda no controle e identificação precoce de padrões problemáticos;
  • Educar o paciente e a família: orientar para que cuidem da região do cateter em casa, evitem molhar o local, não puxar ou tracionar o cateter, observar sinais de alerta e comunicar prontamente.

Exemplos práticos ou situações clínicas

  • Caso clínico 1: Paciente de 65 anos com cateter duplo lúmen na veia femoral há 5 semanas, apresenta inchaço na perna ipsilateral, dificuldade de sangue fluir pelo cateter. O enfermeiro identifica edema e suspeita de trombose extraluminal. A conduta inclui comunicar o médico, solicitar ultrassom vascular, possivelmente trocar cateter ou anticoagular conforme protocolo (Lim et al., 2023);
  • Caso clínico 2: Paciente com hipoalbuminemia leve, cateter inserido há mais de 4 semanas, apresenta secreção purulenta no local de saída e febre leve. O enfermeiro verifica o local, corta curativo, coleta amostra de secreção, comunica equipe médica para iniciar protocolo de infecção, define se troca do cateter é necessária e orienta cuidados domiciliares (Lim et al., 2023).

Benefícios para a Prática Clínica

Quando o enfermeiro domina os cuidados com o cateter duplo lúmen prolongado, há ganhos significativos:

  • Reduz-se a quantidade de infecções relacionadas ao cateter, o que diminui internações, uso de antibióticos e complicações graves;
  • Melhora o funcionamento do cateter, com menos bloqueios, bom fluxo de sangue, sessões de hemodiálise mais eficazes;
  • Aumenta a segurança do paciente, diminui dor, desconforto e riscos associados;
  • Fortalece a confiança do paciente na equipe de saúde, promovendo maior adesão aos cuidados domiciliares ou ambulatoriais;
  • Valorização profissional: o enfermeiro que atua com competência neste tema demonstra conhecimento técnico, atenção aos detalhes e papel essencial no cuidado renal (Muthukuda et al., 2024).

Dica prática: usar checklists de verificação para cateter antes da sessão de diálise (fluxo, aspiração de sangue, inspecionar saída do cateter, curativo) ajuda a evitar esquecimentos.

Conclusão

O cateter duplo lúmen em uso prolongado pode ser necessário em muitos casos, mas não está isento de riscos. Infecções, tromboses, mau funcionamento e complicações mecânicas são ameaças reais quando os cuidados não são adequados.

O enfermeiro tem papel decisivo: observador, educador, cuidador. Atuar com rigor, seguir protocolos, monitorar sinais, orientar paciente e família, intervir rapidamente — tudo isso faz a diferença.

Investir em especialização em Nefrologia e manter-se em educação continuada são os caminhos para que o profissional esteja preparado para lidar com essas situações complexas, oferecendo um cuidado seguro, efetivo e humanizado.

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Referências

Guo Q, Zhang Y, Wang L, et al. Risk factors for catheter-associated bloodstream infection in hemodialysis patients: a meta-analysis. PLoS One. 2024;19(3):e0299715.

Lim L, Park JY, Lee H, Oh SY, Kang C, Ryu HG, et al. Risk factors and outcomes of hemodialysis catheter dysfunction: a retrospective cohort study. BMC Nephrol. 2023;24:334.

López-Rubio M, Lago-Rodríguez M, Ordieres-Ortega L, Oblitas C, Moragón-Ledesma S, Alonso-Beato R, et al. A comprehensive review of catheter-related thrombosis. J Clin Med. 2024;13(24):7818.

Muthukuda C, Samarathunga T, Liyanage L, Marasinghe A, et al. Non-tunneled haemodialysis catheter-related bloodstream infections and associated factors among first-time haemodialysis patients: a prospective study. BMC Nephrol. 2024;25: (article number).

Salim SA, Masoud AT, Thongprayoon C, Cheungpasitporn W, Soliman KM, Garla V, et al. Systematic review and meta-analysis of antibiotic and antimicrobial lock solutions for prevention of hemodialysis catheter-related infections. ASAIO J. 2021;67(10):1079–1086. Wang Y, Xie J, Sun J, Li X, Zhang H. Reevaluation of lock solutions for central venous catheters in hemodialysis: a narrative review. Ren Fail. 2022;44(1):2118068.

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