Introdução
Cuidar de uma criança em hemodiálise é um desafio que vai além do tratamento técnico. O tempo que esses pequenos pacientes passam conectados à máquina pode ser cansativo, doloroso e emocionalmente desgastante. É aí que entra a importância de olhar com sensibilidade para a vivência da criança dentro da unidade de diálise. Os jogos terapêuticos e estratégias lúdicas surgem como ferramentas poderosas para transformar a experiência da hemodiálise pediátrica em algo mais leve, humano e acolhedor.
Para o enfermeiro que atua na nefrologia, compreender e aplicar essas estratégias é mais do que um diferencial — é parte do cuidado integral e humanizado. E neste artigo, você vai entender como essas ações simples podem fazer toda a diferença na vida das crianças e também na sua prática profissional.
A hemodiálise pediátrica: um desafio além da técnica
A hemodiálise em crianças vai muito além do procedimento técnico. As crianças em terapia renal substitutiva enfrentam longas horas de tratamento, geralmente três a quatro vezes por semana. Isso representa uma mudança drástica em suas rotinas escolares, sociais e familiares, afetando profundamente seu bem-estar emocional.
A repetição constante do procedimento, as limitações físicas e o medo da dor tornam o tratamento ainda mais desgastante. De acordo com um estudo publicado na revista Pediatric Nephrology (Bakkaloğlu et al., 2021), pacientes pediátricos em hemodiálise apresentam altos níveis de ansiedade, sintomas depressivos e isolamento social, o que evidencia a necessidade de um cuidado integral e humanizado.
Nesses momentos, o papel do enfermeiro ultrapassa as barreiras da técnica. Ele se torna figura de apoio emocional, acolhendo a criança em sua dor, escutando suas inseguranças e ressignificando a experiência da diálise. Estudos como o de Weisbord et al. (2022) ressaltam que a presença empática da equipe de enfermagem pode melhorar a adesão ao tratamento e reduzir o sofrimento psicoemocional.
O brincar como cuidado: por que usar jogos terapêuticos na hemodiálise?
Mesmo em meio a tratamentos intensivos como a hemodiálise, é essencial lembrar que a criança continua sendo criança. Ela tem necessidade de brincar, de se expressar e de encontrar momentos de leveza mesmo em contextos hospitalares. O brincar terapêutico é uma poderosa ferramenta de cuidado e pode transformar a experiência da diálise em algo menos doloroso e mais suportável (Puggina, 2020).
O brincar é parte essencial do desenvolvimento infantil. Em contextos hospitalares, ele não apenas distrai, mas também promove vários benefícios, como a redução da ansiedade e do estresse, melhora na aceitação do tratamento, estímulo à socialização, aumento da cooperação com a equipe de saúde e fortalecimento do vínculo com o enfermeiro. Segundo o estudo de Melo et al. (2022), atividades lúdicas têm impacto direto na adesão ao tratamento e na qualidade de vida de crianças com doença renal crônica.
A Associação Brasileira de Enfermagem Pediátrica reforça que intervenções lúdicas durante procedimentos invasivos aumentam significativamente a tolerância da criança, facilitando o manejo da dor e favorecendo a continuidade da terapia.
Estratégias lúdicas que funcionam na prática
Implementar atividades lúdicas durante a hemodiálise pediátrica é uma forma eficaz de melhorar o ambiente hospitalar, promover conforto emocional e estimular o desenvolvimento da criança. O uso de jogos e dinâmicas pode ser adaptado à faixa etária e condições clínicas de cada paciente, sendo uma intervenção simples, mas com grande potencial terapêutico (Silva et al., 2021).
Durante as sessões de diálise, atividades como oficinas de desenho e pintura ajudam a manter a criança ocupada e permitem que ela expresse emoções de forma simbólica, facilitando o enfrentamento do tratamento. Jogos de tabuleiro ou quebra-cabeças são recursos que estimulam o raciocínio e a interação, e podem ser mediados pelo enfermeiro, fortalecendo o vínculo com o paciente (Silva et al., 2021).
O teatro de fantoches ou contação de histórias permite que a criança ressignifique sua experiência com a máquina de diálise de maneira criativa. Já os jogos digitais educativos, quando bem selecionados, são aliados importantes para distrair, ensinar e aliviar o estresse. Outra estratégia é o “diário da diálise”, um caderno em que a criança pode escrever, desenhar ou colar figuras sobre seus sentimentos. Isso permite à equipe e à família acompanharem seu estado emocional. Essas práticas lúdicas são responsáveis por maior satisfação no atendimento e melhor qualidade de vida relatada pelas crianças e seus cuidadores (Lima et al., 2023).
O papel transformador do enfermeiro nefropediátrico
O cuidado com crianças em hemodiálise exige muito mais do que habilidades técnicas. O enfermeiro nefropediátrico precisa de sensibilidade, escuta ativa e criatividade. Em cada sessão de diálise, ele é presença constante na vida da criança e da família — alguém que acolhe, observa, brinca e, acima de tudo, cuida com empatia.
Utilizar estratégias lúdicas — como contar histórias, usar brinquedos terapêuticos, fantoches, músicas e desenhos — transforma o ambiente hospitalar. Esse tipo de abordagem diminui o estresse e a ansiedade da criança, melhora a adesão ao tratamento e fortalece a relação com o profissional de saúde.
Como destacou a enfermeira e pesquisadora Laura Puggina (2020):
“O brincar na enfermagem pediátrica não é supérfluo, é terapêutico e essencial.”
Em outras palavras, brincar também é cuidar.
Diversos estudos reforçam que o uso de intervenções lúdicas no cuidado nefropediátrico melhora a resposta emocional das crianças, reduz quadros de agitação durante o tratamento e potencializa o vínculo terapêutico entre equipe e paciente. O enfermeiro que atua com esse olhar integral torna-se um agente de transformação, promovendo um cuidado mais leve, afetivo e eficaz.
Benefícios para a prática clínica do enfermeiro
Atuar com estratégias lúdicas e humanizadas na nefropediatria não só transforma o ambiente para a criança, como também gera resultados clínicos concretos para a equipe de enfermagem. Quando o enfermeiro adota uma postura acolhedora e utiliza recursos adaptados à linguagem infantil, percebe rapidamente melhorias no seu dia a dia profissional (Almeida & Mendonça, 2023).
As crianças ficam menos resistentes aos procedimentos, a comunicação se torna mais fluida, e há maior abertura para observar e compreender sinais emocionais, como medo, tristeza ou raiva. Além disso, os responsáveis percebem a qualidade do cuidado, o que gera mais confiança e colaboração com a equipe (Almeida & Mendonça, 2023).
Outro ponto importante é que o vínculo terapêutico se fortalece. A criança passa a associar o enfermeiro a alguém que cuida e protege, e não apenas realiza punções ou procedimentos invasivos. Isso impacta diretamente na adesão ao tratamento e na segurança emocional do paciente (Lemos et al., 2022).
Além dos ganhos clínicos e emocionais, esse tipo de atuação valoriza o enfermeiro como um profissional integral, que não apenas executa, mas transforma. E, no mercado de trabalho, esse diferencial é cada vez mais reconhecido, especialmente em unidades de nefropediatria e centros de referência em diálise infantil. Estudos mostram que enfermeiros capacitados em abordagens humanizadas têm maior satisfação profissional e desenvolvem um cuidado mais centrado na criança e na família (Lemos et al., 2022).
Conclusão
Humanizar o cuidado é uma urgência em todas as áreas da saúde. Mas quando falamos de crianças em hemodiálise, isso se torna uma missão ainda mais essencial. O ambiente de tratamento pode ser hostil e assustador para uma criança — e é o enfermeiro quem tem o poder de transformar esse cenário em um espaço de acolhimento, vínculo e cuidado sensível.
Estratégias lúdicas e intervenções terapêuticas não são um “plus” no atendimento, são parte fundamental dele. Elas ajudam a criança a compreender e enfrentar o tratamento com mais confiança e menos medo.
Para atuar com excelência nesse contexto, é necessário conhecimento. O enfermeiro precisa estar preparado não apenas para os cuidados técnicos, mas também para os desafios emocionais, comunicacionais e sociais desse público tão específico.
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Referências
Almeida, M. R., & Mendonça, A. F. (2023). Humanização na nefropediatria: estratégias de acolhimento e empatia na prática do enfermeiro. Revista Brasileira de Enfermagem, 76(supl 2), e20230035.
Bakkaloğlu, S. A., et al. (2021). Psychosocial aspects in children receiving hemodialysis. Pediatric Nephrology, 36(7), 1719–1726.
Lemos, E. M. S., Oliveira, C. S., & Sousa, T. M. (2022). Abordagem lúdica na assistência à criança em hemodiálise: percepção da equipe de enfermagem. Revista de Enfermagem Atual In Derme, 96(36), 1–6.
Lima, C. V. A., et al. (2023). Intervenções lúdicas na enfermagem pediátrica: contribuições para o cuidado humanizado. Revista de Enfermagem em Saúde Infantil, 17(1), 35–45.
Melo, L. R., et al. (2022). Terapias lúdicas no cuidado à criança com doença renal crônica: impacto na adesão e bem-estar. Revista Brasileira de Enfermagem, 75(3), e20220014.
Puggina, L. (2020). O brincar como instrumento terapêutico na enfermagem pediátrica. Revista da Escola de Enfermagem da USP.; 54:e03642.
Silva, T. A., et al. (2021). O lúdico como estratégia terapêutica na hemodiálise pediátrica. CuidArte Enfermagem, 15(3), 74–81.
Weisbord, S. D., et al. (2022). Symptom burden and quality of life in chronic kidney disease. Kidney International Supplements, 12(1), 1–8.