Introdução
A decisão de iniciar diálise em pacientes críticos internados em UTI é um dos momentos mais delicados da nefrologia intensiva. Não se trata apenas de números de exames, mas de uma avaliação clínica completa, que envolve evolução do paciente, estabilidade hemodinâmica e risco de complicações graves.
Para a equipe de enfermagem e demais profissionais de saúde, entender esses critérios é essencial. Isso porque o reconhecimento precoce das indicações pode acelerar condutas, evitar atrasos terapêuticos e reduzir mortalidade. Estudos mostram que a lesão renal aguda (LRA) ocorre em até 50% dos pacientes internados em UTI e, quando grave, pode levar à necessidade de terapia renal substitutiva em até 20% dos casos (Hoste et al., 2018; KDIGO, 2012).
Lesão Renal Aguda Grave: o principal gatilho para diálise
O primeiro grande critério para iniciar diálise é a presença de lesão renal aguda em estágio avançado, especialmente o estágio 3 segundo os critérios KDIGO. Isso inclui aumento importante da creatinina ou redução significativa da produção de urina.
Na prática, o paciente começa a chamar atenção quando há queda importante do débito urinário (oligúria) por mais de 6 a 12 horas, ou quando a creatinina sobe de forma rápida e progressiva. Um exemplo comum na UTI é o paciente séptico que, após instabilidade hemodinâmica, evolui com diminuição progressiva da diurese mesmo com reposição volêmica adequada.
As diretrizes KDIGO reforçam que a decisão não deve se basear apenas no número da creatinina, mas no contexto clínico global, principalmente em pacientes críticos (KDIGO, 2012).
Sobrecarga de volume: quando o corpo não consegue mais equilibrar líquidos
Outro critério muito importante é a sobrecarga hídrica. Em pacientes críticos, o acúmulo de líquidos é extremamente comum devido a infusões intravenosas, medicamentos, nutrição e disfunção renal.
O problema é que o excesso de líquido não é apenas um “inchaço”. Ele aumenta o risco de insuficiência respiratória, piora a oxigenação e pode levar à necessidade de ventilação mecânica prolongada.
Na prática clínica, observa-se diálise sendo indicada quando há edema pulmonar refratário ao uso de diuréticos, ou quando o balanço hídrico positivo começa a comprometer a ventilação e a hemodinâmica. Estudos demonstram que balanço hídrico positivo persistente está associado a maior mortalidade em UTI (Bouchard et al., 2019).
Distúrbios metabólicos graves: quando o sangue se desequilibra
A diálise também é indicada quando o organismo não consegue mais corrigir alterações metabólicas importantes. Os principais sinais incluem:
- Hipercalemia grave (potássio elevado com risco de arritmia);
- Acidose metabólica importante e persistente;
- Uremia com sintomas clínicos (confusão, náuseas, pericardite).
Um exemplo clássico é o paciente com potássio acima de 6,5 mEq/L que não responde ao tratamento clínico imediato. Nesses casos, a diálise se torna uma medida de emergência para evitar parada cardíaca.
As diretrizes da Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) destacam esses distúrbios como indicações absolutas ou emergenciais para terapia renal substitutiva (KDIGO, 2012).
Uremia sintomática: quando a toxina já afeta o organismo
A uremia ocorre quando o acúmulo de toxinas no sangue começa a gerar sintomas clínicos importantes. Não é apenas um valor laboratorial, mas um conjunto de sinais do corpo. Os principais sinais incluem alteração do nível de consciência, vômitos persistentes, sangramentos sem causa clara e inflamação do pericárdio.
Na prática, um paciente que começa a apresentar confusão mental progressiva sem outra causa neurológica definida pode estar sofrendo efeitos da uremia, sendo necessário iniciar diálise para “limpar o sangue” e estabilizar o quadro clínico.
Intoxicações e condições específicas na UTI
Em algumas situações, a diálise não está relacionada apenas à insuficiência renal, mas também à remoção de substâncias tóxicas. Isso inclui intoxicações por medicamentos ou substâncias como etilenoglicol, lítio ou salicilatos em níveis elevados.
A diálise ajuda a remover rapidamente essas substâncias da circulação, reduzindo risco de morte. Esse tipo de indicação exige reconhecimento rápido pela equipe de enfermagem, pois o tempo de resposta pode mudar completamente o desfecho do paciente.
Benefícios para a prática clínica da enfermagem
Compreender os critérios para iniciar diálise em pacientes críticos traz impacto direto na segurança do paciente. A enfermagem está na linha de frente do monitoramento contínuo, sendo muitas vezes a primeira a perceber alterações como queda de diurese, edema progressivo ou instabilidade clínica.
Na prática, isso permite:
- Identificação precoce de sinais de alerta;
- Comunicação mais rápida com a equipe médica;
- Redução de atrasos na indicação da terapia renal substitutiva;
- Melhora no controle de balanço hídrico e monitorização rigorosa.
Um ponto essencial é o registro preciso do débito urinário e do balanço hídrico, que são dados fundamentais para decisões clínicas na UTI.
Conclusão
A decisão de iniciar diálise em pacientes críticos é complexa e envolve muito mais do que um exame laboratorial isolado. Ela depende da análise integrada do quadro clínico, dos distúrbios metabólicos, da sobrecarga de volume e da evolução da lesão renal.
Para a enfermagem, esse conhecimento não é apenas teórico — ele impacta diretamente a segurança do paciente e o tempo de resposta da equipe.
A nefrologia intensiva é uma área em constante evolução, e a atualização profissional é essencial para garantir uma assistência de qualidade. A educação continuada permite que o enfermeiro atue com mais segurança, autonomia e capacidade de decisão dentro da UTI.
Para quem deseja se aprofundar nesse universo e crescer profissionalmente, conhecer uma formação especializada pode ser um diferencial importante na carreira. A pós-graduação em Nefrologia da NefroPós é uma oportunidade de aprofundar conhecimentos e se destacar na assistência ao paciente renal crítico.
Referências
Bellomo R, Kellum JA, Ronco C. “Acute kidney injury.” The Lancet, 2012.
Bouchard J et al. “Fluid overload and acute kidney injury in critically ill patients.” Nephrology Dialysis Transplantation, 2019.
Hoste EAJ et al. “Epidemiology of acute kidney injury in critically ill patients.” Critical Care, 2018.
Joannidis M et al. “Prevention of acute kidney injury and protection of renal function in the intensive care unit.” Intensive Care Medicine, 2020.
KDIGO Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney International Supplements, 2012.