Introdução
A diálise peritoneal é uma forma de tratamento muito importante para pacientes com doença renal crônica, pois permite que o próprio corpo, por meio do peritônio (uma membrana que reveste o abdômen), ajude a filtrar o sangue. É um método que oferece mais autonomia ao paciente, podendo ser realizado em casa e com maior flexibilidade na rotina.
No entanto, como qualquer terapia, a diálise peritoneal também apresenta algumas complicações. Entre elas, as hérnias abdominais são bastante comuns e merecem atenção especial da equipe de enfermagem. Essas alterações podem causar desconforto, comprometer o tratamento e, em alguns casos, exigir intervenção cirúrgica.
Por isso, entender como prevenir, identificar e manejar essas situações é fundamental para garantir segurança, continuidade da terapia e qualidade de vida ao paciente.
O que são hérnias abdominais e por que acontecem na diálise peritoneal?
As hérnias abdominais acontecem quando uma parte interna do corpo, como o intestino, “empurra” uma área mais fraca da parede abdominal, formando uma saliência ou “caroço”.
Nos pacientes em diálise peritoneal, isso ocorre com mais frequência porque há um aumento constante da pressão dentro do abdômen. Isso acontece devido à presença do líquido de diálise (dialisato), que permanece dentro da cavidade abdominal durante o tratamento.
Com o tempo, essa pressão repetida pode enfraquecer a musculatura abdominal, facilitando o surgimento de hérnias, principalmente em regiões mais vulneráveis como o umbigo (hérnia umbilical), virilha (hérnia inguinal) ou cicatrizes cirúrgicas (hérnia incisional).
Em termos simples, é como se a parede do abdômen fosse sendo “forçada” diariamente, até que um ponto mais fraco cede.
Principais fatores de risco
Alguns pacientes têm maior probabilidade de desenvolver hérnias durante a diálise peritoneal, e reconhecer esses fatores ajuda muito na prevenção.
Entre os principais fatores estão idade avançada, obesidade, fraqueza muscular, histórico de cirurgias abdominais e presença prévia de hérnias. Além disso, volumes elevados de líquido na diálise e aumento da pressão abdominal, como em casos de tosse crônica ou constipação, também contribuem.
Outro ponto importante é o início precoce da diálise peritoneal logo após a implantação do cateter, sem o tempo adequado de cicatrização. Na prática, isso significa que o enfermeiro deve avaliar o paciente de forma individual, identificando riscos antes mesmo do início da terapia.
Sinais e sintomas: o que observar na rotina
A identificação precoce das hérnias faz toda a diferença no cuidado ao paciente. Muitas vezes, o próprio paciente percebe alterações, mas cabe à equipe de enfermagem investigar e acompanhar.
Os sinais mais comuns incluem aparecimento de um “inchaço” ou abaulamento no abdômen, que pode aumentar ao tossir ou fazer esforço. Alguns pacientes relatam dor leve ou desconforto na região, principalmente durante a infusão do líquido.
Em casos mais avançados, pode haver dor mais intensa, dificuldade para realizar a diálise ou até complicações como encarceramento da hérnia (quando o conteúdo fica preso), o que é uma situação mais grave.
Um exemplo prático seria um paciente que começa a notar um “carocinho” próximo ao umbigo durante a troca da diálise. Mesmo que não haja dor intensa, esse achado deve ser avaliado com atenção.
Estratégias de prevenção na prática de enfermagem
A prevenção das hérnias é uma das principais responsabilidades da equipe de enfermagem na diálise peritoneal.
Uma das medidas mais importantes é o uso de volumes adequados de dialisato, principalmente no início do tratamento. Começar com volumes menores e aumentar gradualmente permite que o corpo se adapte.
Também é essencial orientar o paciente a evitar esforços físicos excessivos, como levantar peso ou realizar movimentos bruscos, especialmente nos primeiros meses.
O controle da constipação intestinal é outro ponto fundamental, pois o esforço para evacuar aumenta a pressão abdominal. Incentivar uma alimentação adequada, hidratação e, se necessário, uso de laxantes prescritos, pode ajudar muito.
Além disso, o enfermeiro deve orientar sobre cuidados com a tosse crônica e outras condições que aumentam a pressão abdominal. O uso de cintas abdominais, quando indicado, também pode ser uma estratégia útil em alguns pacientes.
Manejo clínico das hérnias em pacientes em diálise peritoneal
Quando a hérnia já está presente, o manejo vai depender da gravidade do caso. Em situações leves, pode ser possível continuar a diálise peritoneal com ajustes, como redução do volume de líquido e mudança da posição durante as trocas (por exemplo, realizar o procedimento deitado).
No entanto, muitos casos exigem avaliação cirúrgica. A correção da hérnia é frequentemente necessária para evitar complicações maiores e garantir a continuidade segura da diálise.
Após a cirurgia, geralmente é preciso interromper temporariamente a diálise peritoneal, podendo ser necessário o uso de hemodiálise por um período. O acompanhamento da equipe de enfermagem é essencial nesse processo, tanto no preparo quanto na recuperação do paciente.
Benefícios para a prática clínica
Conhecer bem as hérnias abdominais na diálise peritoneal permite que o enfermeiro atue de forma preventiva, reduzindo complicações e melhorando a qualidade do cuidado.
Na prática, isso significa identificar precocemente alterações, orientar corretamente o paciente e adaptar o tratamento quando necessário.
Além disso, o enfermeiro se torna mais seguro na tomada de decisões e no trabalho em equipe, contribuindo diretamente para a continuidade da terapia e para o bem-estar do paciente.
Dicas práticas incluem sempre inspecionar o abdômen durante as consultas, valorizar queixas do paciente, reforçar orientações sobre esforço físico e manter uma comunicação clara e contínua.
Conclusão
As hérnias abdominais são uma complicação comum, mas que pode ser prevenida e controlada com uma atuação atenta e qualificada da equipe de enfermagem.
O cuidado vai muito além da técnica: envolve observação, orientação, prevenção e acompanhamento contínuo. Quanto mais preparado o profissional estiver, maiores serão as chances de evitar complicações e garantir uma melhor qualidade de vida ao paciente.
Investir em conhecimento é essencial. A nefrologia é uma área que exige atualização constante, e a educação continuada é o caminho para um cuidado mais seguro e eficiente.
Se você deseja se aprofundar nesse e em muitos outros temas importantes da prática nefrológica, conheça a pós-graduação em Nefrologia da NefroPós. Essa é a oportunidade de evoluir na carreira, ganhar mais segurança e se destacar como profissional.
Referências
Bargman, J. M., & Skorecki, K. (2020). Chronic kidney disease and dialysis therapies. In: Brenner & Rector’s The Kidney. Elsevier.
Brown, E. A., Blake, P. G., Boudville, N., et al. (2020). International Society for Peritoneal Dialysis practice recommendations. Peritoneal Dialysis International, 40(3), 244–253.
Crabtree, J. H. (2019). Hernias in peritoneal dialysis patients: pathophysiology and management. Seminars in Dialysis, 32(3), 195–200.
Goh, B. L., Ganeshadeva, Y., Chew, S. E., et al. (2018). Hernia complications in peritoneal dialysis patients. Kidney Research and Clinical Practice, 37(2), 123–129.
Li, P. K. T., Chow, K. M., Cho, Y., et al. (2022). ISPD practice recommendations for peritoneal dialysis. Peritoneal Dialysis International, 42(2), 110–153.