Introdução
A doença renal crônica (DRC) é um problema de saúde crescente em todo o mundo. Quando os rins deixam de funcionar adequadamente e não conseguem mais eliminar toxinas e excesso de líquidos do organismo, muitos pacientes precisam iniciar algum tipo de terapia renal substitutiva. Entre essas terapias, a hemodiálise é uma das mais utilizadas.
Com o avanço da tecnologia na nefrologia, diferentes modalidades de diálise foram sendo desenvolvidas com o objetivo de melhorar a eficiência do tratamento e a qualidade de vida dos pacientes. Entre essas modalidades, duas técnicas chamam bastante atenção na prática clínica: a hemodiálise de alto fluxo e a hemodiafiltração.
Embora ambas sejam utilizadas para remover toxinas do sangue, elas possuem diferenças importantes na forma como realizam esse processo e nos resultados que podem oferecer aos pacientes. Compreender essas diferenças é fundamental para enfermeiros e profissionais de saúde que atuam em unidades de diálise, pois permite uma melhor compreensão do tratamento, maior segurança no cuidado e uma atuação mais qualificada junto à equipe multiprofissional.
Além disso, o avanço constante das tecnologias em nefrologia reforça a importância da especialização e da educação continuada, permitindo que os profissionais acompanhem as inovações e ofereçam um cuidado cada vez mais seguro e baseado em evidências científicas.
O que é a hemodiálise e como funciona o processo de filtragem do sangue
Para compreender as diferenças entre as modalidades de tratamento, é importante primeiro entender como funciona a hemodiálise de forma geral.
A hemodiálise é um procedimento no qual o sangue do paciente é retirado do corpo por meio de um acesso vascular, passa por um equipamento chamado dialisador (ou filtro) e depois retorna ao organismo. Dentro desse filtro existe uma membrana semipermeável que permite a passagem de determinadas substâncias, enquanto outras permanecem no sangue.
Durante esse processo ocorre a remoção de:
- Toxinas acumuladas no organismo;
- Excesso de líquidos;
- Substâncias metabólicas que os rins doentes não conseguem eliminar.
O processo de limpeza do sangue ocorre principalmente por dois mecanismos físicos: difusão e convecção.
A difusão acontece quando substâncias passam de um local de maior concentração para outro de menor concentração, atravessando a membrana do filtro. Já a convecção ocorre quando as substâncias são “arrastadas” junto com o fluxo de líquido que atravessa a membrana (Canaud et al., 2006).
Esses dois mecanismos são utilizados em diferentes proporções dependendo da modalidade de diálise utilizada.
Hemodiálise de alto fluxo: o que caracteriza essa técnica
A hemodiálise de alto fluxo é uma evolução da hemodiálise convencional. A principal diferença está no tipo de filtro utilizado no procedimento. Nesse caso, o dialisador possui uma membrana mais permeável, chamada de membrana de alto fluxo, que permite a passagem de moléculas maiores quando comparada aos filtros tradicionais.
Isso significa que essa técnica consegue remover não apenas toxinas pequenas, como ureia e creatinina, mas também moléculas de médio peso molecular, que estão associadas a diversos processos inflamatórios e complicações da doença renal crônica.
Entre essas moléculas está a beta-2 microglobulina, uma substância que pode se acumular em pacientes em diálise e está associada a problemas como a amiloidose relacionada à diálise. A hemodiálise de alto fluxo utiliza principalmente o mecanismo de difusão, mas também permite uma pequena quantidade de remoção por convecção.
Estudos indicam que o uso de membranas de alto fluxo pode contribuir para melhores resultados clínicos, incluindo menor inflamação e possíveis benefícios cardiovasculares em determinados grupos de pacientes (Locatelli et al., 2015). Hoje, essa modalidade já é bastante utilizada em muitos centros de diálise ao redor do mundo.
Hemodiafiltração: uma técnica que combina dois mecanismos de limpeza
A hemodiafiltração é considerada uma modalidade mais avançada de terapia dialítica, pois combina de forma mais intensa os dois mecanismos de limpeza do sangue: difusão e convecção.
Nesse procedimento, além da remoção de toxinas por difusão, ocorre uma remoção significativa de líquidos através da membrana do filtro. Esse processo gera um fluxo convectivo que arrasta moléculas maiores para fora do sangue.
Para compensar o volume de líquido removido durante esse processo, é necessário repor uma solução estéril chamada fluido de substituição. Esse fluido é administrado durante a sessão de diálise e ajuda a manter o equilíbrio de líquidos no organismo do paciente.
A principal vantagem da hemodiafiltração é sua capacidade de remover uma quantidade maior de toxinas de médio e grande peso molecular, que muitas vezes não são eliminadas de forma eficiente pela hemodiálise tradicional.
Pesquisas recentes sugerem que a hemodiafiltração pode estar associada a redução da mortalidade em pacientes em diálise, especialmente quando são utilizados volumes convectivos mais elevados (Grooteman et al., 2012). Além disso, alguns pacientes relatam melhora em sintomas como fadiga, inflamação crônica e complicações cardiovasculares.
Diferenças práticas entre hemodiálise de alto fluxo e hemodiafiltração
Embora as duas técnicas utilizem filtros modernos e apresentem bons resultados clínicos, existem algumas diferenças importantes entre elas. A hemodiálise de alto fluxo utiliza principalmente o mecanismo de difusão, enquanto a hemodiafiltração combina difusão e convecção de forma mais intensa.
Outra diferença importante está na necessidade de reposição de líquido. Na hemodiafiltração, o volume de líquido removido é maior e precisa ser compensado com a infusão de solução estéril durante o tratamento.
Além disso, a hemodiafiltração exige equipamentos específicos e controle rigoroso da qualidade da água, já que grandes volumes de fluido de substituição são utilizados durante a sessão.
Em muitos centros, a escolha entre essas modalidades depende de fatores como:
- Infraestrutura da unidade de diálise;
- Condição clínica do paciente;
- Acesso vascular adequado;
- Disponibilidade tecnológica.
Apesar dessas diferenças, ambas as técnicas são consideradas seguras e eficazes quando realizadas de forma adequada e com monitoramento apropriado da equipe de saúde (Daugirdas et al., 2021).
O papel da enfermagem no manejo dessas modalidades de diálise
A equipe de enfermagem desempenha um papel essencial no funcionamento seguro das terapias dialíticas. Durante as sessões de hemodiálise ou hemodiafiltração, o enfermeiro é responsável por diversas atividades fundamentais, como:
- Preparação do equipamento de diálise;
- Monitoramento dos sinais vitais do paciente;
- Avaliação do acesso vascular;
- Identificação precoce de complicações;
- Ajuste de parâmetros conforme orientação médica;
- Orientação ao paciente e à família.
Além disso, o enfermeiro deve estar atento a possíveis sinais de intercorrências durante a sessão, como hipotensão, câimbras, náuseas, dor torácica ou alterações no estado geral do paciente.
No caso da hemodiafiltração, o profissional também precisa estar atento ao controle do fluido de substituição, à qualidade da água e aos parâmetros da máquina. Por isso, o conhecimento técnico sobre as diferentes modalidades de diálise é essencial para garantir a segurança do tratamento.
Benefícios para a prática clínica da enfermagem
Compreender as diferenças entre hemodiálise de alto fluxo e hemodiafiltração traz diversos benefícios para a prática clínica da enfermagem. Primeiramente, esse conhecimento permite que o enfermeiro compreenda melhor os objetivos terapêuticos de cada modalidade e participe de forma mais ativa no cuidado ao paciente.
Além disso, facilita a identificação precoce de possíveis problemas durante as sessões e contribui para uma assistência mais segura. Algumas recomendações práticas para o dia a dia incluem:
- Monitorar atentamente os sinais vitais durante a sessão;
- Observar sinais de intolerância ao tratamento;
- Avaliar o acesso vascular antes, durante e após a diálise;
- Registrar adequadamente todos os parâmetros da sessão;
- Reforçar orientações ao paciente sobre controle hídrico e alimentação.
Outro ponto importante é a educação do paciente. Muitos pacientes em diálise possuem dúvidas sobre o funcionamento do tratamento, e o enfermeiro tem um papel essencial em fornecer orientações claras e acessíveis.
Quando o paciente entende melhor o tratamento, ele tende a aderir mais às recomendações e participar ativamente do cuidado com sua própria saúde.
Conclusão
A evolução das terapias dialíticas tem proporcionado novas possibilidades para melhorar a qualidade de vida dos pacientes com doença renal crônica. Entre essas inovações, destacam-se a hemodiálise de alto fluxo e a hemodiafiltração, duas modalidades que oferecem maior eficiência na remoção de toxinas do organismo.
Embora possuam diferenças técnicas importantes, ambas as estratégias representam avanços significativos no tratamento dialítico e podem contribuir para melhores resultados clínicos quando aplicadas de forma adequada.
Nesse cenário, o papel da enfermagem continua sendo fundamental. O conhecimento técnico, a atenção aos detalhes e o acompanhamento contínuo do paciente fazem toda a diferença na segurança e na qualidade do tratamento.
Diante da constante evolução da nefrologia, investir em educação continuada e especialização profissional torna-se cada vez mais importante para acompanhar as novas tecnologias e oferecer um cuidado cada vez mais qualificado.
Se você deseja aprofundar seus conhecimentos em terapias dialíticas e se destacar na área da nefrologia, vale a pena conhecer a pós-graduação em Nefrologia da NefroPós. A especialização pode ampliar suas oportunidades profissionais, fortalecer sua prática clínica e preparar você para atuar com excelência em uma das áreas mais importantes da saúde.
Referências
Canaud B, Bragg-Gresham JL, Marshall MR, Desmeules S, Gillespie BW, Depner T, et al. Mortality risk for patients receiving hemodiafiltration versus hemodialysis. Kidney Int. 2006;69(11):2087–2093.
Daugirdas JT, Blake PG, Ing TS. Handbook of Dialysis. 6th ed. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2021.
Grooteman MPC, van den Dorpel MA, Bots ML, Penne EL, van der Weerd NC, Mazairac AHA, et al. Effect of online hemodiafiltration on all-cause mortality and cardiovascular outcomes. J Am Soc Nephrol. 2012;23(6):1087–1096.
Locatelli F, Karaboyas A, Pisoni RL, Robinson BM, Fort J, Vanholder R, et al. Mortality risk in patients on hemodiafiltration versus hemodialysis: a systematic review and meta-analysis. Nephrol Dial Transplant. 2015;30(4):587–594.