Mitos e Verdades Sobre a Vida em Diálise

Introdução

Receber o diagnóstico de Doença Renal Crônica (DRC) e iniciar diálise é, para muitos pacientes, um momento de medo e incerteza. Junto com a notícia, surgem dúvidas, crenças populares e muitas informações incorretas. Algumas dessas ideias acabam prejudicando a adesão ao tratamento e impactando diretamente a qualidade de vida.

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia, o número de pacientes em diálise no Brasil ultrapassa 150 mil pessoas, e esse número continua crescendo. No cenário global, a World Health Organization alerta que as doenças crônicas, incluindo a DRC, são responsáveis por grande parte das incapacidades e hospitalizações no mundo.

Nesse contexto, o enfermeiro tem papel essencial: além da técnica, ele é fonte confiável de informação. Esclarecer mitos e reforçar verdades é parte do cuidado seguro e humanizado. E para isso, é fundamental conhecimento atualizado e especialização em Nefrologia.

“Quem faz diálise não pode ter qualidade de vida” – Mito

Esse é um dos mitos mais comuns. Muitas pessoas acreditam que a vida em diálise é sinônimo de sofrimento constante e limitação total. A verdade é que, embora a diálise exija adaptações, muitos pacientes conseguem trabalhar, estudar, viajar e manter vida social ativa. Estudos publicados no Clinical Journal of the American Society of Nephrology mostram que qualidade de vida está diretamente relacionada à adesão ao tratamento, controle de sintomas e apoio multiprofissional.

A International Society of Nephrology reforça que estratégias de cuidado centrado no paciente melhoram significativamente o bem-estar físico e emocional. Na prática, o enfermeiro pode estimular o paciente a manter atividades compatíveis com sua condição, orientar sobre organização da rotina e reforçar que a diálise é uma forma de continuar vivendo — não o fim da vida (Elias et al., 2025).

“Diálise dói o tempo todo” – Mito

É verdade que a punção da fístula pode causar desconforto. Porém, a sessão de diálise em si não deve ser dolorosa. Quando o paciente relata dor frequente, câimbras intensas ou mal-estar constante, isso pode indicar:

  • Retirada excessiva de líquido;
  • Ajuste inadequado do peso seco;
  • Alterações eletrolíticas;
  • Problemas no acesso vascular.

A Kidney Disease: Improving Global Outcomes destaca a importância da adequação dialítica individualizada para reduzir sintomas intradialíticos. Aqui entra o papel do enfermeiro: monitorar sinais, registrar intercorrências e comunicar alterações à equipe médica. Dor recorrente não deve ser considerada “normal” (Gomes et al., 2023).

“Quem inicia diálise nunca mais poderá transplantar” – Mito

Muitos pacientes acreditam que começar a diálise significa perder a chance de transplante renal. Isso não é verdade. A diálise, na maioria dos casos, é uma ponte até o transplante. Inclusive, manter tratamento adequado melhora as condições clínicas para futura cirurgia.

Por outro lado, transfusões sanguíneas frequentes podem aumentar risco de sensibilização imunológica, dificultando compatibilidade para transplante. Por isso, as diretrizes da Kidney Disease: Improving Global Outcomes recomendam manejo cuidadoso da anemia. Orientar corretamente o paciente evita medo desnecessário e melhora adesão ao tratamento (Teerawattananon et al., 2020).

“Paciente em diálise não pode beber água” – Mito (parcial)

O que existe é controle hídrico, não proibição total. Pacientes em hemodiálise precisam limitar ingestão de líquidos para evitar sobrecarga entre as sessões. No entanto, a quantidade permitida varia de acordo com diurese residual, peso e condições clínicas.

Exemplo prático: um paciente que ainda urina pode ter maior flexibilidade hídrica do que aquele anúrico. O enfermeiro deve ensinar de forma clara:

  • Como calcular ganho de peso interdialítico;
  • Quais alimentos “escondem” líquidos;
  • Estratégias para controlar sede.

Educação em saúde simples e objetiva reduz complicações como edema e hipertensão (Silva et al., 2013).

“Diálise substitui completamente o rim” – Mito

A diálise substitui parcialmente a função renal. Ela remove toxinas e excesso de líquidos, mas não exerce funções hormonais completas, como produção de eritropoetina ou ativação da vitamina D. Por isso, o paciente precisa de:

  • Controle da anemia;
  • Suplementação adequada;
  • Monitoramento constante de exames.

Compreender essa limitação ajuda o paciente a entender por que ainda precisa de medicações mesmo fazendo diálise (Gomes et al., 2023).

“A vida acaba depois da fístula” – Mito

Alguns pacientes veem a fístula arteriovenosa como algo que “marca” o corpo e limita atividades. Na verdade, a fístula é o acesso mais seguro e com menor risco de infecção quando comparada ao cateter.

Segundo a Centers for Disease Control and Prevention (CDC), cateteres venosos centrais apresentam maior risco de infecção de corrente sanguínea. O enfermeiro deve orientar sobre:

  • Cuidados com o braço da fístula;
  • Evitar aferição de pressão no membro;
  • Identificar sinais de complicações.

Quando o paciente entende que a fístula é uma aliada, não uma inimiga, a aceitação melhora (Elias et al., 2025).

Benefícios para a prática clínica do enfermeiro

Desmistificar a vida em diálise fortalece o vínculo profissional-paciente. Quando o enfermeiro domina o conhecimento, ele: reduz ansiedade do paciente; melhora adesão ao tratamento; diminui faltas às sessões; identifica precocemente complicações; e promove educação em saúde eficaz.

Dicas práticas para aplicar no dia a dia: pergunte ao paciente quais são seus maiores medos; corrija informações incorretas com calma e clareza; utilize exemplos simples para explicar exames; incentive participação ativa no cuidado; e atualize-se constantemente sobre evidências científicas. O conhecimento técnico aliado à comunicação simples transforma a experiência do paciente.

Especialização e educação continuada: o diferencial do profissional de excelência

A Nefrologia é uma área dinâmica. Novas tecnologias, novos protocolos e novas evidências surgem frequentemente. O enfermeiro especializado desenvolve:

  • Segurança na tomada de decisão;
  • Capacidade de liderança na equipe;
  • Melhor posicionamento no mercado;
  • Autoridade técnica.

Educação continuada não é opcional. É parte da responsabilidade ética com o paciente renal (Silva et al., 2013).

Conclusão

A vida em diálise é cercada por mitos. Cabe ao enfermeiro transformar medo em informação, insegurança em confiança e desinformação em conhecimento. Quando unimos técnica, ciência e comunicação clara, oferecemos cuidado mais seguro e mais humano.

Se você deseja aprofundar seus conhecimentos, tornar-se referência na área e ampliar suas oportunidades profissionais, conheça a pós-graduação em Nefrologia da NefroPós. Invista na sua formação e esteja preparado para oferecer um cuidado cada vez mais qualificado.

O paciente renal precisa de profissionais seguros, atualizados e comprometidos com a verdade. E você pode ser esse diferencial.

Referências

Elias MA, Van Damme W, Ku GMV, Kadammanavar M, Wouters E. Lived experiences of people with chronic kidney disease on maintenance dialysis: a systematic review and thematic synthesis of qualitative studies. BMC Nephrol. 2025;26(1):22.

Gomes CAM, Ferraz MSG, Rios RR, et al. Percepções e vivências dos usuários com insuficiência renal crônica em um serviço de hemodiálise. Res Soc Dev. 2023;12(1):e23012139399.

Silva AS, Silveira RS, Fernandes GFM, et al. Percepções do paciente renal submetido à hemodiálise e sua influência na qualidade de vida. Ciênc Cuid Saúde. 2013;7(suppl 2):20615.

Teerawattananon Y, et al. Dispelling the myths of providing dialysis in low- and middle-income countries. Lancet Glob Health. 2020;8(6):e762-70.

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