Introdução
A hemodiálise pediátrica é um tratamento que vai muito além da técnica. Cuidar de uma criança em hemodiálise envolve atenção constante, sensibilidade, conhecimento específico e um olhar humanizado. Diferente do adulto, a criança está em fase de crescimento, desenvolvimento físico e emocional, o que torna o tratamento ainda mais desafiador. Pequenas alterações durante a sessão podem rapidamente evoluir para intercorrências importantes, exigindo da enfermagem uma atuação rápida, segura e bem fundamentada.
Nesse contexto, reconhecer precocemente as intercorrências mais comuns e saber como agir faz toda a diferença para a segurança do paciente pediátrico. A enfermagem ocupa uma posição central nesse cuidado, pois está ao lado da criança durante toda a sessão, observando sinais, comportamentos e mudanças clínicas. Por isso, falar sobre intercorrências na hemodiálise pediátrica é fundamental para fortalecer a prática clínica e garantir um cuidado mais seguro e humanizado.
Particularidades da hemodiálise em crianças
A hemodiálise em crianças apresenta características próprias que exigem atenção redobrada. O volume de sangue corporal é menor, o que torna a criança mais sensível a alterações de pressão, retirada de líquidos e mudanças rápidas no equilíbrio do organismo. Além disso, muitas crianças não conseguem expressar claramente o que estão sentindo, principalmente as mais novas, o que aumenta a responsabilidade da equipe de enfermagem na observação cuidadosa.
Outro ponto importante é o impacto emocional do tratamento. A criança pode sentir medo das máquinas, da punção do acesso vascular e do ambiente hospitalar. Esses fatores podem desencadear ansiedade, agitação e até resistência ao tratamento, aumentando o risco de intercorrências durante a sessão (Bezerra et al., 2019).
Hipotensão arterial durante a hemodiálise pediátrica
A hipotensão, que é a queda da pressão arterial, está entre as intercorrências mais comuns na hemodiálise pediátrica. Ela pode acontecer devido à retirada excessiva de líquidos, ao baixo peso corporal da criança ou à dificuldade de adaptação do organismo ao tratamento.
Os sinais podem incluir palidez, tontura, náuseas, sudorese fria, sonolência ou até perda de consciência. Em crianças pequenas, a hipotensão pode se manifestar apenas por irritabilidade ou choro intenso. A enfermagem deve monitorar constantemente a pressão arterial e observar qualquer mudança no comportamento da criança, agindo rapidamente para evitar complicações mais graves (Bezerra et al., 2019).
Náuseas, vômitos e desconforto gastrointestinal
Náuseas e vômitos são intercorrências frequentes durante a hemodiálise pediátrica e podem estar relacionadas à hipotensão, ao desequilíbrio dos eletrólitos ou até à ansiedade. Esses sintomas causam grande desconforto e podem gerar medo da próxima sessão, dificultando a adesão ao tratamento.
A enfermagem tem papel essencial na prevenção, orientando sobre a alimentação antes da sessão, monitorando sinais iniciais de mal-estar e oferecendo suporte imediato quando os sintomas surgem. Um ambiente acolhedor e uma abordagem calma ajudam a reduzir o estresse da criança nesses momentos (Warady & Schaefer, 2020).
Cãibras musculares e dor
As cãibras musculares também são comuns, especialmente quando há retirada rápida de líquidos. Elas podem causar dor intensa e choro, assustando tanto a criança quanto os familiares. Em muitos casos, a criança não consegue explicar o que está sentindo, apenas demonstra desconforto.
A observação atenta da enfermagem é fundamental para identificar precocemente esses sinais e comunicar a equipe para ajustes no tratamento. O manejo adequado reduz o sofrimento da criança e melhora a experiência durante a sessão (Warady & Schaefer, 2020).
Complicações relacionadas ao acesso vascular
O acesso vascular é a linha de vida da criança em hemodiálise, e qualquer problema relacionado a ele deve ser tratado com extrema atenção. Sangramentos, obstruções, infecções e dificuldade de fluxo são intercorrências que podem surgir a qualquer momento.
A enfermagem deve inspecionar o acesso antes, durante e após a sessão, observando sinais como vermelhidão, dor, inchaço ou sangramento excessivo. A atuação precoce evita complicações mais graves, como infecções sistêmicas, que podem colocar a vida da criança em risco (KDIGO, 2023).
Alterações emocionais e comportamentais durante a sessão
Além das intercorrências físicas, as alterações emocionais são muito comuns na hemodiálise pediátrica. Medo, ansiedade, agitação e até crises de choro podem surgir, principalmente em crianças que estão iniciando o tratamento ou que já passaram por experiências negativas.
A enfermagem desempenha um papel fundamental no acolhimento emocional, criando um ambiente mais seguro e humanizado. Conversar com a criança, explicar o que está acontecendo de forma simples e envolver a família ajudam a reduzir o estresse e prevenir intercorrências relacionadas à agitação, como deslocamento do acesso ou interrupção da sessão (NKF, 2021).
A importância da observação contínua e da ação precoce da enfermagem
Na hemodiálise pediátrica, o tempo de resposta é decisivo. Pequenas alterações podem evoluir rapidamente se não forem identificadas a tempo. Por isso, a enfermagem deve manter vigilância constante, observando sinais vitais, comportamento, expressão facial e reações da criança durante toda a sessão.
A ação precoce, baseada em conhecimento técnico e sensibilidade, reduz riscos, evita agravamentos e promove maior segurança. Esse cuidado atento fortalece a confiança da criança e da família na equipe de saúde, tornando o tratamento menos traumático (SBN, 2022).
Benefícios para a Prática Clínica da Enfermagem
Conhecer as intercorrências mais comuns na hemodiálise pediátrica e saber como agir precocemente melhora significativamente a prática clínica do enfermeiro. Esse conhecimento permite uma atuação mais segura, organizada e confiante, reduzindo eventos adversos e aumentando a qualidade do cuidado prestado.
Na prática diária, o enfermeiro passa a reconhecer sinais sutis, intervir rapidamente e oferecer um cuidado mais humanizado, tanto para a criança quanto para a família. Além disso, fortalece o trabalho em equipe e contribui para melhores resultados clínicos e emocionais (SBN, 2022).
Conclusão
A hemodiálise pediátrica exige muito mais do que domínio técnico. Reconhecer intercorrências, agir precocemente e oferecer um cuidado humanizado são pilares fundamentais para garantir segurança, conforto e qualidade de vida à criança em tratamento renal substitutivo.
A enfermagem tem um papel central nesse processo, sendo responsável por monitorar, acolher e intervir de forma contínua. Investir em educação continuada e especialização em Nefrologia é essencial para aprimorar essa prática e enfrentar os desafios do cuidado pediátrico com mais preparo e sensibilidade.
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Referências
Bezerra, J. A., et al. (2019). Intercorrências em hemodiálise pediátrica e o papel da enfermagem. Jornal Brasileiro de Nefrologia, 41(2), 1–9.
KDIGO. (2023). Clinical Practice Guideline for the Management of Chronic Kidney Disease.
National Kidney Foundation (NKF). (2021). KDOQI Clinical Practice Guidelines for Pediatric Hemodialysis.
Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). (2022). Diretrizes para Terapia Renal Substitutiva em Pediatria.
Warady, B. A., & Schaefer, F. (2020). Dialysis and transplantation in children. The Lancet, 395(10225), 1–13.