Introdução
A diálise peritoneal (DP) é uma opção importante para pacientes com insuficiência renal crônica, oferecendo conforto e maior autonomia. No entanto, o uso do cateter peritoneal — que permite a entrada e saída de soluções de diálise no abdômen — traz um risco significativo de infecções, que podem comprometer seriamente a saúde do paciente.
Por isso, o papel do enfermeiro é essencial: você está na linha de frente da prevenção, da identificação precoce e do cuidado contínuo. Entender os sinais de alerta e aplicar boas práticas de enfermagem pode salvar vidas e garantir a manutenção da técnica com segurança.
Este artigo visa orientar profissionais de enfermagem com informações atualizadas, dicas práticas e reflexões sobre a importância da especialização na área de Nefrologia.
Por que infecções relacionadas ao cateter peritoneal são tão relevantes
A terapia de diálise peritoneal está associada a um risco real de complicações infecciosas: a infecção pode acometer a pele ao redor do cateter (local de saída), o túnel subcutâneo por onde passa o cateter ou a cavidade peritoneal (peritonite). Dependendo da gravidade, essas infecções podem exigir tratamento intensivo, internação, remoção do cateter ou até a interrupção da diálise peritoneal (Akoh, 2012).
Dados mostram que a taxa de infecção pode variar consideravelmente: a incidência relatada em literatura vai de 0,24 a 1,66 episódios/paciente/ano. Por essas razões, a prevenção e o cuidado com o cateter peritoneal devem ser prioridade na prática de enfermagem em nefrologia (Akoh, 2012).
Sinais de alerta: como identificar infecção no cateter ou peritonite
É importante que enfermeiros e cuidadores fiquem atentos a sinais que podem indicar infecção, tanto no local de saída do cateter quanto dentro da cavidade peritoneal. Entre os sinais e sintomas mais comuns estão:
- Vermelhidão, calor, dor, inchaço ou sensibilidade ao redor do local de saída do cateter — pode haver secreção purulenta (pus) ou crostas;
- Dor abdominal, sensibilidade à palpação, distensão abdominal, febre, náuseas, vômitos ou mal-estar geral;
- Saída de líquido de diálise turvo após a drenagem — esse é um sinal clássico de peritonite;
- Em casos de infecção no túnel subcutâneo, pode haver dor ou inchaço que se estende ao longo do trajeto do cateter, não apenas no orifício de saída.
Por exemplo, imagine um paciente que voltou para casa após a instalação do cateter. Ele ou a família nota que a pele ao redor da saída do cateter está avermelhada e dolorida, com uma pequena secreção. Ou no momento da drenagem, o líquido de diálise sai turvo. Esses sinais devem ser comunicados imediatamente à equipe de nefrologia — quanto antes agir, maior a chance de evitar complicações graves (Li et al., 2022).
Boas práticas e cuidados de enfermagem: prevenção e manutenção
Para reduzir o risco de infecção e garantir a segurança da diálise peritoneal, o enfermeiro pode adotar várias medidas importantes:
- Higiene e técnica asséptica rigorosa: lavagem de mãos adequada, uso de máscara quando indicado, uso de luvas, desinfecção da área e ambiente antes da manipulação do cateter;
- Cuidados com o local de saída do cateter (exit-site care): limpar a pele ao redor do cateter com solução recomendada (antisséptica) e manter a área seca e protegida. Mudanças de curativo devem seguir protocolo, e o curativo não deve ser mexido sem necessidade;
- Treinamento e reavaliação da técnica com pacientes e cuidadores: ensinar de forma clara como realizar as trocas, higienização e conexões; revisar a técnica periodicamente — idealmente, pelo menos uma vez por ano ou após intercorrências;
- Uso de profilaxia quando indicado: por exemplo, antibióticos profiláticos antes da inserção do cateter reduzem o risco de infecções iniciais;
- Monitorização contínua e auditoria das infecções: registrar em prontuário, acompanhar indicadores de infecção da unidade de DP, identificar padrões ou causas frequentes para atuar preventivamente;
- Comunicação com equipe multidisciplinar: envolver nefrologistas, nutricionistas, técnicos, família e cuidadores — o cuidado integral aumenta as chances de sucesso e reduz complicações.
Essas práticas, quando realizadas de forma consistente, reduzem muito a chance de complicações e promovem um ambiente seguro para o paciente (Abud et al., 2015).
Fatores de risco e desafios comuns
Alguns fatores podem aumentar o risco de infecção e devem ser observados com atenção:
- Tempo de uso do cateter: quanto mais tempo o cateter permanece em uso, maior o risco de infecção no sítio de saída ou peritonite;
- Histórico de infecção de sítio de saída ou túnel anteriormente — pacientes com esse histórico têm risco aumentado de recidiva;
- Técnica inadequada (pela equipe ou pelo paciente/cuidadores), falta de treinamento ou negligência nos cuidados diários de higiene;
- Situações de imunossupressão, comorbidades ou má condição nutricional podem aumentar vulnerabilidade à infecção.
Esses desafios reforçam a necessidade de vigilância constante, educação e um cuidado de enfermagem qualificado e comprometido (Akoh, 2012).
Benefícios para a Prática Clínica
Quando o enfermeiro domina os conhecimentos sobre infecções no cateter peritoneal e adota práticas seguras, há ganhos concretos:
- Redução de complicações graves: menos episódios de peritonite, menos necessidade de remoção de cateter ou troca para hemodiálise, menor mortalidade;
- Melhor qualidade de vida para o paciente: segurança, continuidade da terapia, menos hospitalizações, maior bem-estar;
- Empoderamento do paciente e da família: com informação clara e capacitação, pacientes e cuidadores se tornam protagonistas do cuidado — colaborando para prevenção e manutenção da técnica;
- Valorização da enfermagem especializada: ao atuar com competência, o enfermeiro reafirma seu papel essencial na equipe de nefrologia, contribuindo de forma significativa para a saúde e segurança do paciente;
- Atualização constante e redução de falhas: com auditoria e monitoramento, a equipe consegue identificar falhas, corrigir procedimentos e implementar melhorias contínuas (Abud et al., 2015).
Dicas práticas para aplicar já na sua rotina:
- Crie fichas ou protocolos de inspeção do cateter e local de saída — registre sinais como vermelhidão, dor, secreção, turvação do líquido;
- Realize treinamentos regulares com pacientes e cuidadores: ensine técnica, higienização, troca de curativos, cuidados no dia a dia;
- Mantenha prontuário atualizado com histórico de infecções, intervenções, alterações e resultados — facilita rastreamento e prevenção;
- Adote check-lists de assepsia antes de cada conexão/desconexão do cateter;
- Integre a equipe multidisciplinar: compartilhe informações com nefrologista, microbiologia, nutrição, para decisões mais seguras e planejadas (Li et al., 2022).
Conclusão
As infecções relacionadas ao cateter peritoneal representam uma das complicações mais sérias da diálise peritoneal — com impacto direto na saúde, na técnica de diálise e na qualidade de vida do paciente. Mas boa parte dessas complicações pode ser evitada com vigilância, cuidados rigorosos, educação e trabalho em equipe.
O enfermeiro, por sua proximidade com o paciente e com a rotina de diálise, exerce papel central nessa prevenção. Por isso, investir em especialização em Nefrologia e buscar educação continuada é fundamental — permite atuar com segurança, competência e humanização.
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Referências
Abud ACF, Kusumota L, dos Santos MA, Rodrigues FFL, Damasceno MMC, Zanetti ML. (2015). Peritonite e infecção de orifício de saída do cateter em pacientes em diálise peritoneal no domicílio. Revista Latino-Americana de Enfermagem.; 23(5):902-909.
Akoh JA. (2012). Peritoneal dialysis associated infections: An update on diagnosis and management. World J Nephrol.; 1(4):106–122.
Li PK-T, Chow KM, Cho Y, et al. (2022). ISPD peritonitis guideline recommendations: 2022 Update on prevention and treatment. Perit Dial Int.