Introdução
Se você é enfermeiro e já atuou com pacientes em hemodiálise (HD), provavelmente já ouviu uma queixa muito comum e angustiante: “Enfermeira, não aguento mais essa coceira!” Esse incômodo, que chamamos de prurido urêmico, pode parecer algo simples à primeira vista, mas está longe de ser apenas um detalhe da rotina dialítica. Ele é considerado um dos sintomas mais frequentes e debilitantes em pacientes com doença renal crônica em terapia de substituição renal. A coceira persistente interfere no sono, no humor, na qualidade de vida e, em alguns casos, até na adesão ao tratamento.
Muitos pacientes relatam que a coceira os impede de dormir ou os faz se sentir mais ansiosos e deprimidos. Como profissionais de enfermagem nefrológica, temos um papel fundamental na observação, acolhimento e orientação desses pacientes. Precisamos entender as possíveis causas desse sintoma, saber reconhecer os sinais e, principalmente, propor condutas que tragam alívio e qualidade de vida. Neste artigo, vamos conversar de forma clara, objetiva e prática sobre como lidar com essa queixa tão comum — mas muitas vezes negligenciada — na nossa rotina.
Por que o paciente em hemodiálise sente tanta coceira?
O prurido urêmico é uma das queixas dermatológicas mais comuns entre pacientes em hemodiálise e pode ter diversas causas que se somam e se intensificam. Antes de tudo, é importante lembrar que estamos lidando com um organismo já fragilizado por um quadro crônico e sistêmico. A coceira pode surgir por causa do acúmulo de toxinas urêmicas, que os rins comprometidos não conseguem mais filtrar adequadamente, causando irritações cutâneas e inflamações. Além disso, há o desequilíbrio no metabolismo do cálcio e do fósforo, muito comum em pacientes com doença renal crônica, que leva à deposição de cristais na pele, aumentando a sensação de coceira (Mettang & Kremer, 2015).
A pele ressecada, ou xerose cutânea, é outra causa importante. A limitação no consumo de líquidos, os banhos frequentes e a menor produção de suor contribuem para uma pele mais seca e sensível. Também há fatores hormonais envolvidos, como o hiperparatireoidismo secundário, com níveis elevados de PTH, que altera o metabolismo ósseo e pode agravar o prurido. As inflamações crônicas e alterações do sistema imunológico — presentes em muitos pacientes renais — também são gatilhos para o surgimento do prurido. Por fim, não podemos esquecer das possíveis reações a medicamentos e até mesmo à membrana do filtro dialítico, que podem desencadear respostas alérgicas ou irritativas (Narita & Alchi, 2020).
Um dado importante: um estudo publicado na Kidney International Reports mostrou que mais de 40% dos pacientes em hemodiálise relatam prurido moderado a grave, e que esse sintoma tem impacto direto na qualidade de vida, no bem-estar psicológico e até na mortalidade (Narita & Alchi, 2020).
Como identificar sinais de alerta na prática da enfermagem?
A coceira nem sempre é relatada de forma espontânea pelo paciente, o que torna ainda mais importante a observação cuidadosa e o diálogo acolhedor durante o cuidado de enfermagem. Muitos pacientes sentem vergonha de reclamar, acreditam que a coceira é “normal da doença” ou simplesmente não sabem que há alternativas para aliviar o sintoma. Por isso, o enfermeiro deve estar sempre atento a sinais visíveis e queixas indiretas que possam indicar a presença do prurido urêmico (Shirazian et al., 2017).
Entre os sinais de alerta mais frequentes estão as escoriações ou lesões de coçadura na pele, que aparecem principalmente nas costas, braços e pernas. A vermelhidão, descamação e ressecamento da pele também são pistas importantes. Além disso, queixas relacionadas à falta de sono, irritabilidade ou cansaço crônico podem estar diretamente associadas ao desconforto causado pela coceira, principalmente quando ela se intensifica durante a noite ou durante a sessão de hemodiálise (Shirazian et al., 2017).
Durante o acolhimento e na avaliação diária, é fundamental fazer perguntas diretas como: “Você tem sentido coceira ultimamente?”, “Em que parte do corpo?”, “Isso tem atrapalhado seu sono?”. Essas perguntas simples ajudam a criar uma oportunidade para um cuidado mais humano e individualizado, além de possibilitar intervenções precoces e orientações adequadas. Vale lembrar que o prurido persistente também pode ser um sinal de agravamento da doença mineral e óssea ou de inflamações subjacentes, o que reforça a importância de não ignorar esse sintoma (Rayner et al., 2017).
O que pode ser feito para aliviar esse sintoma?
A coceira em pacientes em hemodiálise pode ser um grande desafio, tanto para quem sente quanto para quem cuida. O enfermeiro, que está na linha de frente do atendimento, pode desempenhar um papel essencial no alívio do prurido urêmico, adotando medidas simples, eficazes e humanizadas. Para isso, é necessário conhecer as possibilidades terapêuticas e abordagens que realmente funcionam, com base em evidências e na prática clínica (Almeida et al., 2020).
O primeiro passo está nos cuidados básicos com a pele. A hidratação é fundamental para combater a pele seca, que é uma das causas mais comuns da coceira. O ideal é orientar o paciente a usar hidratantes sem perfume, preferencialmente com ureia em baixa concentração (até 10%), que ajudam a restaurar a barreira cutânea. Também é importante evitar banhos muito quentes ou demorados, pois eles removem a oleosidade natural da pele. Sabonetes neutros e suaves devem ser priorizados, assim como a recomendação de não usar buchas ásperas que possam machucar a pele já sensibilizada (Almeida et al., 2020).
Em alguns casos, o paciente pode precisar de medicamentos. Entre os mais utilizados, estão os anti-histamínicos, a gabapentina e pomadas calmantes de uso tópico. No entanto, em casos graves, é fundamental encaminhar o paciente para avaliação médica, a fim de ajustar a prescrição ou investigar outras possíveis causas, como o hiperparatireoidismo secundário (Almeida et al., 2020).
Outro ponto importante é avaliar a eficiência da diálise. Se o tempo ou a qualidade da terapia estiverem inadequados, o acúmulo de toxinas pode aumentar o desconforto. O enfermeiro pode colaborar nesse processo acompanhando indicadores como o Kt/V (que mede a eficácia da diálise) e comunicando à equipe médica sempre que algo estiver fora dos parâmetros esperados (Simonsen et al., 2021).
Além disso, é preciso avaliar os distúrbios minerais que frequentemente acompanham os pacientes renais, como alterações no cálcio, fósforo e PTH. Esses desequilíbrios podem contribuir para a coceira e exigem ajustes na dieta, nos medicamentos e até na conduta clínica. Nesses casos, uma avaliação conjunta com o nutricionista é altamente recomendada.
Por fim, não podemos ignorar o impacto emocional do prurido crônico. Ansiedade, insônia e até depressão são consequências comuns. Escutar o paciente, validar sua queixa e acolher sua dor é um cuidado tão importante quanto qualquer intervenção técnica. O apoio emocional deve fazer parte do plano terapêutico, fortalecendo o vínculo entre profissional e paciente (Simonsen et al., 2021).
Como esse conhecimento transforma a prática do enfermeiro?
Entender o que está por trás da coceira no paciente em hemodiálise é uma forma poderosa de ampliar o olhar da enfermagem e entregar um cuidado ainda mais completo. A atuação do enfermeiro vai muito além de aplicar medicações ou cuidar do acesso vascular — ela também envolve observar o paciente como um todo, acolher suas queixas, interpretar sinais sutis e propor soluções (Germain et al., 2011).
Ao saber que o prurido pode impactar diretamente o sono, o humor, a autoestima e até a adesão ao tratamento, o enfermeiro se torna um agente essencial na melhoria da qualidade de vida desse paciente. Com conhecimento atualizado, é possível fazer avaliações sistemáticas da pele, aplicando escalas de prurido e registrando a evolução dos sintomas. Essas práticas permitem um acompanhamento mais preciso e embasado, além de facilitar o diálogo com outros profissionais da equipe (Germain et al., 2011).
O enfermeiro também pode sugerir ajustes simples no ambiente, como manter a sala de diálise mais fresca, orientar o uso de roupas confortáveis ou oferecer um hidratante durante a sessão. Além disso, o envolvimento do enfermeiro na criação de protocolos de cuidados específicos junto à equipe médica fortalece o trabalho interdisciplinar e promove um cuidado mais integrado (Pisoni et al., 2006).
A educação continuada é essencial para que esses profissionais se mantenham atualizados e preparados para lidar com situações como essa. Afinal, quanto mais conhecimento o enfermeiro tiver, mais autonomia, segurança e sensibilidade ele terá para agir de forma proativa e transformadora no cuidado ao paciente renal (Pisoni et al., 2006).
Conclusão
A coceira em pacientes em hemodiálise não deve ser encarada como um sintoma menor. Ela é um reflexo de desequilíbrios complexos no corpo, pode afetar a saúde mental, causar sofrimento e, se não for tratada com atenção, comprometer até a continuidade do tratamento. Como enfermeiros, temos a oportunidade e a responsabilidade de olhar além da técnica, acolher o paciente em sua totalidade e fazer diferença com pequenas ações que trazem alívio e dignidade.
Para isso, é essencial continuar aprendendo. A enfermagem em nefrologia exige preparo, sensibilidade e atualização constante. Por isso, se você deseja oferecer um cuidado ainda mais qualificado, humanizado e baseado em evidências, te convido a conhecer a Pós-graduação em Nefrologia da NefroPós. Essa formação foi pensada para enfermeiros como você, que desejam evoluir, crescer na carreira e transformar a vida de pacientes renais com mais conhecimento, segurança e empatia.
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Referências
Almeida T, Leite M, et al. (2020). Prurido urêmico: um sintoma subestimado na prática da enfermagem em hemodiálise. Rev Bras Enferm.; 73(2):e20190064.
Germain, M. J. et al. (2011). The impact of CKD-associated pruritus on quality of life: a patient-centered perspective. Seminars in Dialysis, 24(4), 471–475.
Mettang, T., & Kremer, A. E. (2015). Uremic pruritus. Kidney International, 87(4), 685–691.
Narita, I., & Alchi, B. (2020). Pathogenesis and management of uremic pruritus. Kidney International Reports, 5(7), 1050–1058.
Pisoni RL et al. (2006). Pruritus in hemodialysis patients: international results from the Dialysis Outcomes and Practice Patterns Study (DOPPS). Nephrol Dial Transplant.; 21(12):3495–3505.
Rayner, H. C., Larkina, M., Wang, M., et al. (2017). International comparisons of prevalence, awareness, and treatment of pruritus in people on hemodialysis. Clinical Journal of the American Society of Nephrology, 12(12).
Shirazian, S., Aina, O., Park, Y., et al. (2017). Chronic kidney disease-associated pruritus: Impact on quality of life and current management challenges. International Journal of Nephrology and Renovascular Disease, 10, 11–26.
Simonsen, E. et al. (2021). Treatment of chronic kidney disease-associated pruritus: a systematic review. American Journal of Kidney Diseases, 77(3), 413–423.