Introdução
A Doença Renal Aguda (DRA), também chamada de insuficiência renal aguda, é uma condição grave e relativamente comum em pacientes hospitalizados, principalmente aqueles internados em unidades de terapia intensiva. O que torna a DRA tão perigosa é sua capacidade de se instalar de forma rápida e muitas vezes silenciosa, sem sintomas óbvios no início. Em poucas horas ou dias, a função dos rins pode se deteriorar, afetando o equilíbrio de líquidos, eletrólitos e a eliminação de toxinas do corpo. Se não for identificada precocemente, a DRA pode aumentar significativamente o risco de morte, prolongar o tempo de internação e até deixar sequelas permanentes, levando o paciente à necessidade de diálise ou até mesmo ao transplante renal.
Nesse cenário, o enfermeiro tem um papel essencial. Por estar em contato direto e contínuo com o paciente, é ele quem muitas vezes percebe os primeiros sinais de que algo está errado. Ter um olhar atento, conhecer os fatores de risco e saber interpretar mudanças clínicas sutis pode fazer toda a diferença. A identificação precoce da DRA pode salvar rins – e vidas.
O que é a DRA e por que ela é tão perigosa?
A DRA é uma condição em que os rins perdem, de maneira rápida e súbita, a sua capacidade de filtrar o sangue. Isso pode acontecer em questão de horas ou poucos dias. Quando os rins falham, o corpo não consegue eliminar adequadamente as toxinas, manter o equilíbrio dos sais minerais (como potássio e sódio) nem controlar a quantidade de água no organismo.
Entre as principais causas estão a desidratação grave, infecções severas como a sepse, uso de medicamentos que podem agredir os rins (como vancomicina, aminoglicosídeos e anti-inflamatórios não esteroidais), sangramentos intensos, cirurgias complexas, episódios de hipotensão prolongada e obstruções no trato urinário (como cálculos ou aumento da próstata) (Mehta et al., 2021).
Dados do estudo “Global Burden of Disease” apontam que a DRA afeta até 20% dos pacientes hospitalizados e mais de 50% dos pacientes internados em UTI, sendo considerada um importante marcador de gravidade e mortalidade hospitalar (Mehta et al., 2021). Por ser uma condição grave e de rápida evolução, qualquer atraso na sua identificação pode comprometer gravemente o estado clínico do paciente.
Sinais de alerta que o enfermeiro precisa observar
A Doença Renal Aguda pode começar de forma silenciosa, sem sintomas claros. Por isso, o enfermeiro precisa estar atento a mudanças sutis que podem indicar o início do problema. Um dos sinais mais importantes é a redução do volume urinário – conhecida como oligúria. Se o paciente estiver urinando menos de 0,5 mL por quilo de peso por hora, por mais de 6 horas, isso já é motivo de alerta (Hoste et al., 2020).
Outros sinais que merecem atenção incluem a presença de urina escura, espumosa ou com odor forte, inchaço em pernas, pés ou rosto (edema), aumento repentino da pressão arterial ou dificuldade para controlá-la, além de mudanças no nível de consciência, como sonolência excessiva ou confusão mental sem causa aparente (Hoste et al., 2020).
Resultados laboratoriais também podem ajudar na suspeita clínica: aumentos nos níveis de creatinina e ureia indicam que os rins não estão filtrando corretamente. Nestes casos, o enfermeiro deve comunicar imediatamente a equipe médica e registrar cuidadosamente todos os achados no prontuário (KDIGO, 2023).
A vigilância ativa e o registro preciso ajudam na tomada de decisão clínica e podem evitar a progressão da DRA para estágios mais graves. Segundo a Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO, 2023), a identificação precoce da disfunção renal e o início rápido de medidas de suporte reduzem consideravelmente a mortalidade e as complicações associadas.
O papel da monitorização da diurese e balanço hídrico
A observação da urina pode parecer algo simples, mas ela é uma das ferramentas mais valiosas para detectar precocemente a Doença Renal Aguda (DRA). O enfermeiro, ao acompanhar de perto o volume e o aspecto da diurese, consegue perceber mudanças que, muitas vezes, passam despercebidas por outros profissionais. Quando os rins começam a falhar, um dos primeiros sinais é a diminuição do volume urinário (Vincent et al., 2022).
Por isso, o controle rigoroso da entrada e saída de líquidos — também conhecido como balanço hídrico — deve ser feito com muita atenção. Isso inclui registrar com precisão a quantidade de líquidos administrados, tanto por via oral quanto endovenosa, medir a diurese por turno ou, nos casos mais graves, de forma horária, e observar alterações na cor, no odor e no aspecto da urina. Qualquer mudança, especialmente a redução significativa do volume urinário, deve ser imediatamente comunicada à equipe médica (Vincent et al., 2022).
Estudos mostram que a monitorização do débito urinário está diretamente associada à detecção precoce de DRA e à melhora dos desfechos clínicos em pacientes críticos (Vincent et al., 2022). Pequenos detalhes no cuidado fazem toda a diferença na prevenção de complicações maiores.
Medicamentos que exigem atenção do enfermeiro
Muitos medicamentos utilizados no ambiente hospitalar, mesmo quando essenciais, podem comprometer a função renal se não forem administrados com cautela. O enfermeiro precisa estar atento a isso, especialmente em pacientes já fragilizados. Alguns fármacos, como antibióticos do grupo dos aminoglicosídeos (como a gentamicina), antivirais como o aciclovir, diuréticos em altas doses, anti-inflamatórios não esteroidais (os famosos AINEs), e contrastes iodados utilizados em exames de imagem, podem sobrecarregar ou lesar os rins (Pinho et al., 2023).
É fundamental que o profissional observe como o paciente reage após a administração desses medicamentos, monitorando sinais como queda no volume de urina, aumento da creatinina nos exames, náuseas, vômitos, confusão mental ou sonolência. Esses sinais podem indicar o início de uma DRA (Pinho et al., 2023).
De acordo com o guideline da KDIGO (2023), a prevenção da DRA passa pela identificação e minimização de fatores de risco, incluindo o uso de drogas nefrotóxicas. O enfermeiro, por estar presente na linha de frente do cuidado, é peça-chave nesse processo.
Casos clínicos que exigem mais vigilância
Nem todos os pacientes têm o mesmo risco de desenvolver DRA. Alguns grupos merecem uma atenção especial por parte da equipe de enfermagem. Idosos com hipertensão, diabetes ou outras doenças crônicas, por exemplo, têm uma reserva funcional renal menor e são mais vulneráveis. O mesmo vale para pacientes com histórico prévio de doença renal, que já vivem com os rins comprometidos (Hoste et al., 2021).
Pacientes em uso de múltiplos medicamentos — especialmente aqueles com ação potencialmente nefrotóxica —, ou que estejam enfrentando quadros de infecção grave (sepse), hipotensão, cirurgias de grande porte, trauma ou que estejam internados em unidades de terapia intensiva (UTI), também fazem parte do grupo de maior risco (Hoste et al., 2021).
Nesses casos, o enfermeiro deve intensificar a vigilância clínica, acompanhar os sinais vitais, o volume urinário e o estado geral do paciente com ainda mais cuidado. A prevenção da DRA depende diretamente da detecção precoce em pacientes vulneráveis. Segundo pesquisas recentes, o reconhecimento de grupos de risco e a vigilância de enfermagem reduzem em até 30% as complicações associadas à insuficiência renal aguda hospitalar (Hoste et al., 2021).
Benefícios para a Prática Clínica do Enfermeiro
Quando o enfermeiro desenvolve esse olhar clínico, ele se antecipa às complicações. A identificação precoce da DRA pode evitar a necessidade de diálise, reduzir internações prolongadas e salvar vidas. Além disso, mostra competência, segurança e fortalece sua atuação em equipe multidisciplinar.
Um profissional bem-preparado também se torna referência dentro da unidade, ganhando respeito e destaque pela sua conduta.
Conclusão
Identificar a Doença Renal Aguda desde os primeiros sinais é um diferencial na prática do enfermeiro hospitalar. Com um olhar clínico treinado e conhecimento técnico atualizado, o profissional de enfermagem se torna peça fundamental na prevenção de complicações, na redução de mortalidade e na promoção de um cuidado mais seguro, humanizado e eficaz.
A boa notícia é que esse olhar pode — e deve — ser desenvolvido com estudo, prática e especialização. A enfermagem nefrológica é uma área promissora, com alta demanda e que exige profissionais preparados.
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Referências
Hoste EA et al. (2020). Epidemiology of acute kidney injury: How big is the problem? Critical Care Medicine.
Hoste, E.A.J. et al. (2021). Epidemiology of acute kidney injury in critically ill patients: the multinational AKI-EPI study. Intensive Care Med, 47(1), 60–71.
KDIGO (2023). Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney Int Suppl.
Mehta RL et al. (2021). Epidemiology and outcomes of acute kidney injury in intensive care units: A systematic review and meta-analysis. Critical Care.
Pinho, M. P., et al. (2023). Identificação precoce da lesão renal aguda na enfermagem hospitalar. Rev Bras Enferm.
Vincent, J.L. et al. (2022). Fluid management in acute kidney injury. Intensive Care Medicine, 48(1), 12–22.