Introdução
O diabetes mellitus é uma das principais causas de Doença Renal Crônica (DRC) no mundo. Muitos pacientes que chegam à hemodiálise têm histórico de diabetes de longa data e convivem com alterações metabólicas complexas. Nesse cenário, a hipoglicemia — queda excessiva da glicose no sangue — torna-se um risco real, frequente e, muitas vezes, silencioso.
Segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), o diabetes é responsável por grande parte dos casos de pacientes em terapia renal substitutiva no Brasil. Já a International Diabetes Federation (IDF) aponta que o número de pessoas com diabetes continua crescendo mundialmente, o que impacta diretamente os serviços de nefrologia.
Durante a hemodiálise, alterações na glicose podem ocorrer devido à remoção de insulina, mudanças metabólicas e jejum prolongado. Para o enfermeiro, reconhecer, prevenir e agir rapidamente diante da hipoglicemia é uma competência essencial. Mais do que um evento isolado, a hipoglicemia pode causar convulsões, perda de consciência e até risco de morte.
Falar sobre esse tema é falar sobre segurança, vigilância e cuidado especializado.
Por que o paciente em hemodiálise tem maior risco de hipoglicemia?
A hipoglicemia ocorre quando a glicemia cai geralmente abaixo de 70 mg/dL. Em pacientes renais, esse risco é maior por vários motivos. Primeiro, os rins participam da metabolização e eliminação da insulina. Quando a função renal está reduzida, a insulina pode permanecer mais tempo no organismo, prolongando seu efeito. Isso significa que uma dose habitual pode se tornar excessiva.
Além disso, durante a hemodiálise há alterações no equilíbrio de glicose. Dependendo da solução utilizada no dialisato (líquido da diálise), pode ocorrer queda da glicemia ao longo da sessão.
Diretrizes da Kidney Disease: Improving Global Outcomes reforçam que pacientes diabéticos em DRC avançada necessitam de monitorização glicêmica individualizada, especialmente durante terapias dialíticas. Outro fator importante é o apetite reduzido. Muitos pacientes chegam à sessão sem se alimentar adequadamente, seja por náuseas, falta de tempo ou restrições alimentares mal compreendidas (Golsorkhi et al., 2025).
O resultado é um cenário de vulnerabilidade metabólica.
Sinais e sintomas: quando o corpo pede ajuda
A hipoglicemia pode se manifestar com sintomas leves ou graves. Entre os sinais mais comuns estão: sudorese fria; tremores; palpitações; tontura; visão turva; e confusão mental. Em casos mais graves: convulsões; perda de consciência; e coma.
Um ponto importante é que pacientes renais podem apresentar sintomas atípicos ou menos intensos. Às vezes, a única manifestação é sonolência ou mudança de comportamento.
Imagine a seguinte situação clínica: durante a segunda hora de hemodiálise, o paciente começa a ficar calado, responde lentamente e diz estar “estranho”. A verificação imediata da glicemia pode revelar níveis abaixo de 60 mg/dL. A atenção da enfermagem nesse momento é decisiva (El Hennawy et al., 2025).
O papel da enfermagem na prevenção
Prevenir é sempre melhor do que tratar. E a prevenção começa antes mesmo de iniciar a sessão de hemodiálise.
Algumas medidas práticas incluem:
- Verificar glicemia capilar antes da sessão;
- Questionar se o paciente se alimentou adequadamente;
- Avaliar uso recente de insulina ou antidiabéticos orais;
- Observar histórico de episódios anteriores.
A American Diabetes Association recomenda monitorização frequente da glicemia em pacientes com doença renal avançada, devido à maior variabilidade glicêmica. Outra estratégia importante é o planejamento alimentar. Orientar o paciente a realizar uma refeição leve antes da diálise pode reduzir significativamente o risco de hipoglicemia intradialítica (Mottl et al., 2022).
Conduta diante da hipoglicemia
Se a hipoglicemia for identificada e o paciente estiver consciente, a conduta imediata é oferecer carboidrato de absorção rápida, como:
- 1 copo de suco comum;
- 1 colher de sopa de açúcar dissolvido em água;
- Tabletes de glicose.
Após 15 minutos, deve-se repetir a glicemia.
Se o paciente estiver inconsciente ou não puder ingerir líquidos, a administração de glicose intravenosa é necessária, conforme protocolo institucional. Registrar o episódio e comunicar a equipe médica é fundamental para reavaliar doses de insulina e estratégias futuras (El Hennawy et al., 2025).
Ajustes terapêuticos e individualização
Cada paciente em hemodiálise é único. Alguns apresentam hipoglicemias frequentes; outros, episódios raros. A individualização do tratamento é essencial. Muitas vezes, pode ser necessário:
- Reduzir dose de insulina em dias de diálise;
- Ajustar horários de aplicação;
- Rever medicações antidiabéticas;
- Avaliar padrão alimentar.
O enfermeiro especializado em Nefrologia tem maior preparo para identificar padrões e sugerir discussões clínicas com a equipe multiprofissional (Golsorkhi et al., 2025).
Impactos da hipoglicemia recorrente
Hipoglicemias repetidas não são eventos “simples”. Elas aumentam risco cardiovascular, favorecem quedas e impactam a qualidade de vida.
Estudos recentes publicados no Clinical Journal of the American Society of Nephrology indicam que variações glicêmicas intensas estão associadas a maior mortalidade em pacientes em diálise (CJASN, 2022).
Isso reforça a importância de vigilância constante.
Benefícios para a prática clínica
Quando o enfermeiro domina o manejo da hipoglicemia em hemodiálise, os benefícios são claros:
- Redução de eventos adversos;
- Maior segurança durante a sessão;
- Melhor controle metabólico;
- Fortalecimento do vínculo com o paciente;
- Reconhecimento profissional dentro da equipe.
Na rotina, algumas práticas fazem grande diferença:
- Criar protocolo interno de monitorização glicêmica;
- Manter sempre disponível fonte de glicose rápida na sala;
- Registrar episódios para análise de padrão;
- Reforçar educação em saúde sobre alimentação;
- Atualizar-se constantemente sobre novas diretrizes.
Pequenas ações salvam vidas.
A importância da especialização em Nefrologia
A Nefrologia exige conhecimento profundo sobre fisiologia renal, metabolismo, farmacologia e complicações dialíticas. A hipoglicemia é apenas um dos desafios diários.
A especialização permite que o enfermeiro compreenda não apenas “o que fazer”, mas “por que fazer”. Esse entendimento fortalece a tomada de decisão, melhora a comunicação com a equipe médica e amplia a segurança assistencial.
A educação continuada é indispensável. Protocolos mudam, evidências evoluem e a tecnologia avança. O profissional que investe em atualização se torna referência no cuidado (Mottl et al., 2022).
Conclusão
A hipoglicemia em pacientes diabéticos em hemodiálise é uma complicação frequente, potencialmente grave e, muitas vezes, silenciosa. A atuação vigilante da enfermagem é essencial para prevenir, identificar e tratar rapidamente esses episódios.
Com conhecimento técnico, sensibilidade clínica e compromisso com a segurança, o enfermeiro transforma o cuidado e protege vidas.
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Referências
Clinical Journal of the American Society of Nephrology (CJASN). Glycemic variability and outcomes in dialysis patients. 2022.
El Hennawy HM, et al. Predictive models to improve symptom burden classification in HD patients including metabolic derangements. J Nurs Manag. 2025;33(4):960–972.
Golsorkhi M, et al. Communication practices in advanced kidney disease including glycemic management. J Nephrol. 2025;38(5):1021–32.
Mottl AK, et al. Glycemic variability and outcomes in dialysis patients: a cohort study. Clin J Am Soc Nephrol. 2022;17(8):1234–42.